Meus filhos me abriram para o mundo
Eu não pensava em ser mãe. Achava que não tinha jeito pra coisa, nunca fui fã de crianças. Na verdade nem pensava sobre isso. Queria rodar o mundo, conhecer pessoas, trabalhar, ganhar dinheiro, ser dona do próprio nariz. Erroneamente, achava que um caminho excluía o outro.
Seguia à risca o futuro que as mulheres de minha vida me ensinaram dia a dia. Minha avó Odete, minha madrinha Matilde e minha mãe Joana D’arc, tentando garantir em mim o direito à escolha sobre a minha vida, coisa que talvez não tiveram, incentivavam de todas as formas a minha autonomia. E isso estava explicitado sob várias maneiras: deram-me uma visão de mundo diferente daquelas que elas tiveram. Ou melhor, me colocaram no mundo, esse mesmo mundo que elas só viam pela janela. Não que tenha sido necessariamente assim na vida delas, mas foi assim que se formou a vida delas na minha visão.
Ocorre que num belo dia de verão descubro que minha vida seria mudada para sempre. Naquele exato momento do positivo nas mãos eu, tão menina, tão mulher, tão insegura, tão profissional, tão estudante, seguindo certamente cada quadradinho do tabuleiro que minhas mulheres tinham indicado como o caminho da vida. Eu, grávida! Mas, ainda não tinha o carro, o apartamento e todos os carimbos no passaporte antes de “me prender a algum homem”, como regia uma das regras do manual da mulher independente. Que antagonismo de ideias. E agora, José? Fodeu, pensava eu!
Eis que Eduardo chegou para fazer meu mundo virar de pernas para o ar. Minhas ideias sacodidas, meus conceitos revistos, meu mergulho interior apenas começando. Com a vinda de meus dois meninos, eu me transformei profundamente, por dentro e por fora. Com eles, aprendi a dar valor ao que realmente importa, a perceber a razão pela qual estou no mundo e a encontrar sentido nos desvios de caminho que por vezes curvamos.
Foi parindo de forma normal, sentindo cada contração e expulsando Eduardo e Luca de meu corpo é que consegui expulsar também uma Glauciana individualista e fechada em conceitos egoístas de felicidade. Passando pelas dores do parto é que eu pude curtir o meu couro para que ficasse mais resistente a todos os desafios que viriam nos anos seguintes. Depois que meus filhos nasceram eu entendi que sou capaz de fazer tudo o que eu quiser, basta eu me abrir para isso.
Oras, se eu gerei duas vidas em meu interior, célula por célula até que tudo se transformasse em órgãos e ossos. Se eu pari duas crianças, sentindo a maior dor e a maior delícia da vida de uma mulher, sendo protagonista dos MEUS partos e respeitando o sagrado da natureza que rege todos os seres. Se eu doei o meu tempo integral à amamentação de meus filhotes, concretizando a minha capacidade de alimentar um ser humano, dando a vida, matando a sede e saciando a fome. Se eu fui capaz de fazer tudo isso, posso conseguir fazer qualquer coisa que eu quiser, qualquer coisa.
Eu poderia dar exemplos de cada minúcia da maternidade que me fez ser quem sou hoje. E espanta-me que tudo isso descrito acima não passa do mais natural dos atos humanos. Tomando consciência disso é que entendi que quanto mais nos aproximamos do natural, do trivial, do óbvio, do ciclo normal, mais nos fortalecemos, pois é isso o que realmente importa. Na real, quando me aproximo disso, entro em contato com Deus, porque Ele, para mim, se expressa nessa forma. O sagrado toma forma nos meios mais simplistas.
Meus filhos são as maiores mudanças que aconteceram em mim. Depois deles, o tal carro, o apartamento em meu nome e as passagens pelos aeroportos vieram, para me mostrar que há inúmeras capacidades e facetas dentro de cada mulher. A Glauciana profissional se tornou mais produtiva depois que se tornou mãe. E depois que virou mãe, a Glauciana mulher se abriu para o mundo, recebendo dele o que quer que ele tenha para dar, respeitando seus limites e escolhas.
*Imagem: We Heart It












1 comentário para "Meus filhos me abriram para o mundo" | Adicione o seu »
Pois é Glaucia , eu tb nunca me imaginei mãe na minha adolescencia. Confesso que pensava em seguir uma carreira. Mas apartir do momento que soube que estava com serzinho formando vida dentro de mim, passei a ver a vida com outros olhos. Meus filhos sempre estão em primeiro lugar. Deixei de ser egoista, e pensr no que é melhor para eles.
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