By paddloPayday loans

01 jun 2012

A vida que ninguém vê

Post por Glauciana às 05:18 em Devaneios de Mãe


Eu conheci uma mulher linda. Talvez não se encaixe nos padrões da mulher gostosa, o mulherão de um metro e oitenta, mas há quem diga que ela tem seus encantos mesmo no corpo pequeno de metro e meio. Ela sorri o tempo todo, distribui sorrisos sinceros a quem quer que seja. Prosa fácil, faz amigos a toda hora, seja no trabalho, no boteco ou no velório. Está sempre cercada de gente bonita e reluzente. Dirige um carro novo, vermelho, sem fazer grande esforço. Sai na TV, na escola de samba, na revista, no jornal, no site, no blog. Ela atrai os holofotes. Parece não ter problema com dinheiro, afinal suas fotos mostram como come bem, sempre estrelando os restaurantes mais vistosos da cidade. Não economiza nos saltos e nas passagens, pois com ambos pode rodar o mundo, coisa que gosta tanto de fazer. Altiva, não é mulher presa na gaiola de marido, pode colecionar amores leves, rápidos e efêmeros, só aproveitando o lado bom deles. Comunica-se com facilidade, expressa-se com intensidade e fala com velocidade. Sua casa é linda e acolhedora, lá moram seus sonhos mais ousados junto com duas crianças que enfeitam a vida dela com cor e diversão.

Essa mulher sou eu. Glauciana. Glau. Glaucita. Pequena. Baxinha. Catita. Glauzinha. Glauber. Para cada um sou uma. E sim, eu me acho tudo isso ali da mulher bonita do primeiro parágrafo. É assim como me vejo em muitos momentos. E tenho a impressão que muitos me veem assim também.

Entretanto, amigos, é válido lembrar que a grama do vizinho sempre parece mais verde do que a nossa. O que não vemos é o quanto o pobre homem passa manhãs inteiras sob o sol escaldante cortando-a, podando-a, tirando as cobras e lagartos que se escondem sob o tapete gramado. Nos dias de chuva intensa não vemos o homem escorregando e tomando o maior tombo do mundo em sua grama molhada. Não! Porque de fora, de nossa janela, só é possível ver a beleza da grama verde nas tardes de sol.

Eu conheço uma mulher linda. Mas, ela normalmente acorda com mau hálito e cabelos ouriçados. Ela chora as dores da vida, que são várias, na mesma intensidade com que ri, entretanto sempre faz isso enfiada em seu travesseiro ou no colo dos mais chegados. Ao contrário dos sorrisos, o choro é mais velado e poucos veem. Embora fale com todos e esteja sempre cercada de amigos, não são poucas as noites de solidão, quando tem de enfrentar sua própria sombra e os fantasmas que vivem em sua cabeça. Para dar conta de comer no restaurante hypado no fim de semana, almoça no quilo mais barato das redondezas durante a semana ou vai com sua marmita para a copa do escritório nos dias de vacas magras. Para pagar as 345778 parcelas de seu carro novo passa madrugadas inteiras, com dedos congelando, duros, digitando letrinhas que trarão alento para a conta bancária no final do mês. Beija quem quer, mas nem sempre tem o abraço que quer. Porque beijos são bem fáceis de se conseguir, mas abraços.. ah, os abraços, poucos conseguem doar. Seus filhos parecem perfeitos e as fotos do café da manhã são montagens da família doriana com uma pequena diferença, ela tem uma vida real. Seus filhos fazem birra, por vezes são mal educados, a deixam louca em muitos momentos, fazem-na se sentir culpada por vários motivos, vomitam em cima da mesa do café da manhã, saem correndo corredor do shopping afora fazendo-a gritar mais que o homem da cobra.

Essa mulher sou eu. Também! Glauciana. Glau. Glaucita. Pequena. Baxinha. Catita. Glauzinha. Glauber. Porque tudo tem o outro lado! Porque existe a vida que ninguém vê. A vida diária. Porque tem as pingas que a gente toma. E tem os tombos que a gente toma. Mas, para quê divulgar os tombos? Mais bonito é sorrir e posar para o instagram com um copo na mão. O tombo a gente deixa pros bastidores.

E em uma tarde dessas, quando Luca chorava desesperado porque queria o bonequinho da mão do amigo, eu me lembrei dessa grama mais verde do vizinho. O brinquedo era idêntico ao de Luca. Igual. Cópia. Mesma marca. Mesmo tamanho. Mesma cor. Mas, Luca queria o boneco do amigo. O seu não era suficientemente bom ou legal como o do amigo. Mas, eram iguais.

Então eu me lembrei de escrever isso pra ele, para que saiba um dia que também temos gramas verdes em nosso quintal. E antes de lamentar o colorido vibrante daquilo que parece não ter, que preste mais atenção. Só um tiquinho mais de atenção. Olho vivo e faro fino. Porque, afinal, não há tanto mal que não possa ter um pouquinho de bem. Como existe um pinguinho de mal na brancura alva do bem.

*Imagem: We Heart It

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

9 comentários para "A vida que ninguém vê" | Adicione o seu »

  1. jun 01, 2012 @ 11:27 {Responder}

    Muito lindo, Glau…. A reflexão, o modo como colocou suas ideias… além de toda essa oportunidade para repensarmos certos conceitos, você escreveu de um modo tão bonito, tão literário… Adorei!

    [Reply]

    Glauciana Nunes Reply:

    Obrigada, meu amor. Um elogio tão sincero desses me deixa toda honrada, pois sei de sua exigência literária. Beijo tiamu

    [Reply]

  2. jun 01, 2012 @ 17:15 {Responder}

    Glau, eu sou uma eterna apaixonada por seus textos !!! Ohhh mocinha que consegue colocar o coração nas palavras de forma tão humana e delicada !! E bem hj eu estava mesmo precisando dessas palavras !!!
    Obrigada e bom fim de semana

    [Reply]

  3. jun 02, 2012 @ 01:11 {Responder}

    Adoro seu blog e seus textos como sempre fantásticos….

    [Reply]

  4. cassiana
    jun 02, 2012 @ 04:15 {Responder}

    Me emocionei ao ler o artigo acima. Lindo, bem escrito, sensível.identifiquei-me muito com o que escreveu. Abços

    [Reply]

  5. jun 02, 2012 @ 12:48 {Responder}

    Amei, Glau!!! Posso fazer uma gracinha? Achei, no começo que você estava falando de mim!! rs
    Mas agora é sério! Adorei toda sua reflexão e principalmente quando, ao final, você diz que ninguém quer ver fotos de coisas tristes! Mas na vida somos assim: não queremos guardar as tristezas que sofremos, só queremos lembrar dos momentos de felicidade!! E com as fotos é a mesma coisa! Que mal há nisso???

    [Reply]

  6. jun 02, 2012 @ 16:03 {Responder}

    Que lindo Glau! Adorei! Ah! como me identifico com seus textos!!

    [Reply]

  7. jun 03, 2012 @ 00:53 {Responder}

    você não imagina o quanto me identifiquei com o seu texto, com a sua história, só não posso beijar quem eu bem entender. :-)

    [Reply]

  8. jun 03, 2012 @ 22:33 {Responder}

    Nossa Glau, mais um lindo texto, me identifiquei demais com a parte de que choramos as dificuldades da vida com a mesma intensidade com que rimos e só vêem as pingas que tomo e não os tombos que eu levo. Abraço
    Você nos faz refletir e nos motiva a ser fortes.Um Abraço

    [Reply]

Deixe um comentário





  • * requerido
*