Eu morro, tu morres, ele morrerá
Eu, Eduardo e Luca fazendo nossa oração diária, antes de dormir, quando Dudu me interpela e pergunta: “Mamãe, eu vou morrer antes de você?”
Respondi a ele: “Eu peço ao Papai do Céu que não, filho. Espero que eu possa ir antes de você e te desejo uma vida muito longa”.
E ele emendou: “Mas se eu morrer antes, você vai fazer aquela oração carinhosa que você fez para o seu primo Roberto?”
“Sim, filho, claro que vou”, finalizei essa conversa.
Eu acompanhei o evento da morte da ciclista na sexta-feira, 2/3, na Avenida Paulista, em São Paulo, atropelada por um ônibus de transporte coletivo municipal. Cheguei de manhãzinha na empresa, liguei meu notebook e já comecei a ver as notícias, já que o acidente tinha sido há alguns poucos quilômetros de mim, não mais que dois.
Fui vendo a cobertura pelo Facebook dos repórteres cidadãos, com fotos, fatos, posts. Uma manifestação inflamada começava a tomar forma por toda a cidade. Em pouco tempo organizaram-se em muitos ciclistas para parar a avenida Paulista. No meio de uma tempestade severa de chuva, eu fiquei parada 40 minutos em frente aos gritos e manifestos por um trânsito mais gentil e que respeite e integre as bicicletas à rotina do tráfego da cidade.
Respeitei os manifestantes, por nenhum momento fiquei irritada ou buzinei, como quase todos que estavam parados ao meu lado. De fato, uma morte que nos chocou. Muito li à respeito e todos se mostravam bastante comovidos com o atropelamento de uma garota. Um grande alarde se fez e acho que com razão.
Mas, hoje de manhã dirigindo fiquei pensando: todos nós morreremos um dia. Morrer é o único evento certo de nossas vidas. Quantas pessoas perdem suas vidas diariamente em acidentes de carro? E as centenas que morrem de uma vez quando cai um avião? E os inúmeros pedestres que são atropelados nas ruas? E os motoqueiros que perdem os controles de suas motos e se estabacam no chão, perdendo suas vidas? Ou seja, pessoas morrem. E morrem todos dias. Independente do meio de transporte delas, morrem. Se a cada pedestre, motociclista, caminhoneiro, ciclista e motorista de ônibus que morresse no trânsito tivéssemos uma manifestação na Avenida Paulista, ela seria apenas espaço para passeatas fúnebres.
Não sou contra à manifestação. Acho, sim, que devemos arrumar formas de integrar cada vez mais alternativas sustetáveis de transporte em metrópoles como São Paulo e a ver o corpo da garota estendido no chão atrapalhando o trânsito mexeu, sim, comigo. O que eu gostaria apenas de abordar é que a morte, assim como a naturalidade de Eduardo ao me perguntar se ele iria antes de mim, deveria ser encarada como algo mais natural para nós.
Se nós ocidentais conseguíssemos de alguma forma, que eu também não sei como, encarar o desencarne como apenas uma passagem de plano, talvez ficasse mais simples aceitar a partida daqueles que amamos.
*Imagem: We Heart It











