O algoz também é vítima
Terça-feira de carnaval, tarde da noite. Dois jovens em uma moto, em alta velocidade, nas ruas de uma cidade do interior do Paraná. Um deles com várias passagens pela polícia, já tendo estado recentemente preso por posse de crack e falsificação de dinheiro. A polícia os aborda, o piloto não para a moto, saca uma arma e a aponta para os soldados que não exitam em dar dois disparos contra o peito do garoto, alegando legítima defesa. O menino de 19 anos cai ao chão e morre imediatamente.
Assim, de forma nua e crua, até me parece muito fácil falar as tristes máximas: “Até que demorou. Um marginal. Um delinquente, que teve o que mereceu. Um garoto problema, viciado, nóia, só poderia ter esse fim mesmo. Pilantra, que já foi preso várias vezes. Todo mundo esperava por isso”.
Sim, talvez tudo isso aí seja verdade. Mas, o fato é que raramente viramos os nossos olhares para ver que qualquer delinquente é, antes de tudo, uma pessoa. Um ser humano com questões internas como qualquer outra e muita necessidade de sentir-se amado.
O garoto do trecho é meu primo. Filho biológico de um tio, meio-irmão de minha mãe. Eu o conhecia desde bebê, embora nos últimos anos não tenhamos estado próximos. Aos 19 anos foi assassinado, deixando uma filha de três anos e uma esposa grávida de seis meses.
Ontem, ao saber da notícia já tarde da noite, telefonei para minha mãe e conversamos sobre o fato. Ela, que estava extremamente abalada, me falava dos comentários duros e negativos do restante da família sobre o sobrinho. Nem na hora da morte nos parece fácil deixar o peso do julgamento. Nem vendo um jovem sendo assassinado aos 19 anos deixamos de lado nossas amarras sociais que nos forçam a eliminar aquilo que não não é correto, aquilo que não segue as regras, aquilo que não anda na linha.
Sim, não posso negar que o garoto não fosse um problema. Talvez até muito perigoso, uma ameaça para a sociedade. Sim, podem alegar que ele pudesse atirar na polícia. Mas, ainda assim e além disso, eu e minha mãe concordamos que em todo algoz também há alguma porção de vítima. E que a linha desse limite entre um lado e outro é muito tênue.
Essas mesmas pessoas que tão duramente deram de ombros para a morte do menino, afinal “era só mais um delinquente que teve o que mereceu”, sabem da história dele. Um bebê que com dois anos tem o pai assassinado (tristemente a história se repete), a mãe o rejeita, casa-se de novo e forma nova família, deixando a criança de lado. Sem escolha, ele fica com a avó paterna, uma ex-prostituta, que teve quatro filhos e deu dois para adoção, um deles minha mãe. Passou a vida toda sendo espancado, tolhido, ameaçado. Nunca recebeu um abraço, um feedback positivo, um incentivo. Tudo o que conhecera foi a insegurança e a rejeição. Pai morto, mãe que não o quis, avó espancadora. Seria de esperar demais que um menino nessas condições, somado à uma realidade financeira difícil, muito difícil, pudesse dar “boa gente” como a sociedade manda e espera de todos nós.
Eu presenciei cenas com aquele garoto, enquanto ele ainda era uma criança. E hoje me doi muito a morte dele, por imaginar meus filhos passando um terço das situações pelas quais ele fora submetido. Lembro-me de seus olhinhos assustados, de seu jeito inseguro, de sua necessidade de um beijo e um abraço. Uma criança carente de estímulos, de dinheiro, de oportunidades, de amor. Por essas razões é que eu e minha mãe lamentamos muito seu desencarne. Mas, mais que isso, lamentamos a forma implacável como muitos encararam sua morte.
É, é o que eu sempre digo. Será que o mundo está todo ao contrário e eu não percebi?
*Imagem: We Heart It











3 comentários para "O algoz também é vítima" | Adicione o seu »
Nossa, Glau que história triste… Acho que o mundo está todo ao contrário, sim…
Beijos
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Seu texto mais uma vez me levam as lágrimas… Com uma correção,quando ele ficou órfão de pai, tinha apenas 1 ano e não 2. Mas isso pouco importa diante do futuro que ele teve. Me sinto impotente em saber que nada contribui para seu desenvolvimento, conseguia ver através daqueles olhos negros, frios e solitáris, uma centelha de carinho e um pedido ensurdecedor de socorro… O tempo passou… Tínhamos pouco contato… E seu fim chegou… Ele foi o seu próprio algoz… Que triste…
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É mais fácil para todos nós simplesmente deixarmos de lado quem não reza pela nossa cartilha. Eu faço isso, você certamente também, por mais que não queira. É muito difícil buscarmos o bem que mora dentro de cada um, principalmente quando esse um só faz questão de mostrar o que tem de pior. Só nos preocupamos mesmo com isso quando já não há mais tempo, quando não se pode mais ajudar, quando já não podemos mais fazer a diferença na vida daquela pessoa.
Aí só nos resta lamentar, com a falsa sensação de ter feito algo de bom em lamentar enquanto a maioria nem liga.
É minha querida, o mundo está todo ao contrário mesmo e não é de hoje.
Bjs
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