26 jan 2012

De perto ninguém é normal

Post por Glauciana às 16:57 em Devaneios de Mãe

Marcela, 31 anos, casada, mãe de dois filhos, urbana, vive em uma grande capital no nordeste do Brasil. Muito estudiosa, desde cedo seguiu os passos dos pais, professores universitários, no caminho das letras. Desde que teve seu primeiro filho e se abriu para o maravilhoso mundo da maternidade, percebe que seus instintos foram tão aflorados, que tudo o que ela quis na vida foi dedicar-se à família. Tanto que abriu mão da profissão que amava e hoje vive a cuidar da casa, do companheiro e dos dois filhos que tem. Recentemente, mudou do interior do estado do Paraná para uma grande capital, onde não conhece ninguém, para acompanhar a caminhada profissional de seu marido.

Claudiane, 26 anos, casada, sem filhos, romântica, mora com o marido em uma capital na região sul do país. Filha de lavradores mineiros, foi para longe tentar a vida como fotógrafa, seu sonho desde a infância. Já nos primeiros meses de perrengue na nova cidade conheceu seu príncipe encantado e começou a viver junto com ele, com quem considera que construiu uma família. Longe dos pais e dos irmãos, que continuam em Minas Gerais e ela só vê uma vez por ano, quando muito, já que o marido – um grande executivo da área imobiliária – não tem tempo para viagens, sonha em ter filhos e criar na capital a sua própria família.

Helena, 30 anos, divorciada, mãe de dois filhos, ostenta com orgulho as duas graduações que concluiu e ama desempenhar seus dons profissionais. Vive na maior cidade da América do Sul, longe da família, criando sozinha seus filhos pequenos, embora conte com a ajuda do pai deles, que lhe deixou alegando falta de amor. Romântica, explosiva, sonhadora e prática ao mesmo tempo, não acredita mais em príncipes encantados, mas adoraria encontrar um perdido por aí em um carro esportivo branco ou, talvez, uma bicicleta branca, tanto faz. Cheia de energia e alegria, vive feliz na metrópole, aproveitando o que a vida lhe oferece.

Três mulheres diferentes, que não se conhecem. Aparentemente diferentes, mas que se olharmos com um pouco mais de atenção, talvez encontremos semelhanças nelas. Lendo assim, um breve perfil de suas vidas, seus jeitos e como vivem, somos tentados naturalmente a pensar que são felizes. Que as três encontraram suas realizações e ostentam a palavrinha mágica que tanto procuramos por aí: a felicidade!

Sim, é provável que sejam felizes. Ou melhor, que encontrem os lampejos da felicidade vez ou outra. Marcela, quando ouve da boca de seu bebê a primeira palavrinha “mamãe”, sente-se a mais feliz das mulheres, reafirmando para si a importância de estar integralmente ao lado dos filhos. Claudiane, quando ganha uma Louis Vitton do marido, na comemoração de seus três anos de casados, na Casa Fasano, sente-se a esposa mais valorizada do mundo e lembra-se que, sim, eles dois formam uma família. Helena, quando entrelaça suas mãos a de seus filhos à noite, depois de um dia bom no trabalho, recebendo um aumento e muitos elogios por um projeto bem sucedido, sente-se a mais capaz das mulheres por ter sucesso profissional e poder participar de forma tão cúmplice da vida de suas duas crianças.

A vida que ninguém vê, entretanto, acontece diariamente. Minha mãe costumava dizer, com aqueles bons e verdadeiros clichês de interior, que poucos veem os tombos que eu levo, mas muitos veem as pingas que eu tomo. Fácil julgar que Marcela, Claudiane e Helena sejam felizes, alegres e realizadas na vida que escolheram para si. O que só elas sabem é a quantidade de problemas que têm que administrar diariamente. Porque a vida da gente é feita de escolhas e desafios e agruras com as quais temos que lidar.

Só olhando de perto é possível ver a luta interna que Marcela trava com ela mesma para ter abdicado de mulher independente, solteira, dona de seu nariz, profissional destemida para romper com tudo e ser “apenas” mãe. Só ela sabe que por trás de sua aparente vida tranquila e calma cuidando da casa, dos filhos e do marido, tem contas a pagar, tem pias e mais pias de louça para lavar, já que o dinheiro contado não permite uma ajudante. Só ela sabe do cansaço extremo, ao final do dia, depois de ter se desdobrado com a atenção irrestrita às crianças, à casa, ao planejamento do jantar. Só ela sabe do desafio que é buscar a libido por trás dos pêlos que cobrem sua virilha, dos cabelos brancos carentes de tintura e das unhas quebradas de tanto lavar roupa.

Colocando uma lupa no dia a dia de Claudiane conseguimos ver o quanto ela sofre de saudade da família. Das noites de solidão que enfrenta enquanto o marido emenda uma reunião importante com um jantar de negócios e, quando chega em casa, quer uma esposa sorridente, esperando-o pronta para uma massagem nas costas, tão cansado que não consegue nem perguntar como foi o seu dia. Só ela sabe a dor que é se sentir vivendo a vida de outra pessoa e ainda ser lembrada constantemente que é ele quem paga tudo, ele é o dono de tudo e que não é mais que sua obrigação estar ali, à sua disposição, já que ele lhe oferece luxo e conforto, que ela nunca teria conseguido com a família ou com seu trabalho, já aposentado, de fotógrafa.

Quem vê a energia contagiante de Helena e sua sede em viver a vida, não enxerga o quanto ela também se sente sozinha no mundo, apesar de viver rodeada de pessoas. Quem a vê “mulher poderosa”, destemida, criando dois filhos, sempre sorrindo, não percebe a necessidade que tem de ser cuidada por alguém. Quando chega em sua casa depois de um dia de lutas e coloca seus pequenos para dormir, tudo o que queria era alguém que lhe oferecesse o jantar ou que perguntasse como foi o seu dia. Só ela sabe da dificuldade que é ser vista como a mulher maravilha, que não precisa de cuidados. E não raro se questiona: “quem cuida do cuidador?“.

De perto ninguém é normal, já dizia o poeta. As aparências podem enganar. Aquela grama verdinha do vizinho também vira um matagal horroroso se ele não perde horas e horas de seu fim de semana cortando-a. Por isso, tenho tentado mostrar a meus filhos que aquele amiguinho que levou o último lançamento do Max Steel ou a superpista Hot Wheels para a escola, também deve ficar de castigo por falta de comportamento. Porque, quando temos a habilidade de perceber que problemas fazem parte da vida de todo mundo, deixamos de nos sentir os seres mais injustiçados do mundo e podemos ir arrumando formas práticas e menos dramáticas de ir convivendo com eles e matando um a um. Ou, então, se não der para matar, que possamos seguir dando o sossega-leão constante que precisam para ficar quietos, sendo matidos sob controle… o controle que der.

*Imagem: We Heart It

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3 comentários para "De perto ninguém é normal" | Adicione o seu »

  1. jan 26, 2012 @ 19:13 {Responder}

    Glau, primeiro parabéns pelo “renovado” blog.. ficou lindooo!!! E, como sempre, excelente texto. Tenho falado exatamente disso estes dias com meu marido, que – no meio do caos em que as vezes nos encontramos para tentar equilibrar e se achar em uma rotina de pais com filho – tem a ótima “tendência” de achar que todas as outras famílias (e mães principalmente) conseguem isso com facilidade. E eu repito, todas as vezes “Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem ideia do que é a jornada deles.” Só ali no dia a dia cada um sabe o que precisa para ter cada vez mais instantes de felicidade, ou quais sonhos têm que abandonar para que outros possam se realizar e por aí vai. Adorei a reflexão.. um beijo.

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  2. jan 26, 2012 @ 20:02 {Responder}

    Parabéns pelo novo layout – lindo, leve, tranquilo… O ótimo texto, como sempre, nos convida a refletir…pude me identificar um pouquinho com cada uma das “personagens” que, de tão reais, me servem de inspiração. É isso aí, sem lutas não há vitórias! Bjos
    Tati

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  3. janaina
    fev 04, 2012 @ 02:15 {Responder}

    Você é demais!! parece que quando ouvimos dos outros que na verdade a vida é assim mesmo, e que todo mundo tem conflitos e insegurança parece que tudo fica mais leve!! tira um peso enorme das minhas costas! obrigada

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