19 dez 2011

Você vive sem mim?

Post por Glauciana às 19:19 em Devaneios de Mãe

“Mamãe, você não vive sem mim?”, perguntou-me Eduardo nessa semana.

Eu respondi: “Dudu, vivo sim. Porque viver é fácil, a gente dá um jeito, os dias vão passando, um sol e uma lua seguidos, e a gente vai vivendo. Na verdade, filho, a gente não precisa de ninguém pra viver. Mas, é bom viver ao seu lado e de seu irmão”.

Percebi que ele ficou um tanto decepcionado com a minha resposta. E percebi também que desde cedo a gente vai tendo essa necessidade de saber se o outro não vive sem nós. Besteira das grandes, cilada fácil de cair.

Porque é mesmo que eu preciso de alguém que não vive sem mim? Isso me soa como algo negativo. Estarei enganada? E é só na dor da perda de um grande amor que a gente percebe em como as letras de música pendem sempre para essa mesma direção: “eu não sou nada sem você”, “não vivo sem você”, “meu mundo caiu”. Ô gente problemática, meu analista diria.

Brincadeiras à parte, hoje tenho a convicção de que precisar de alguém para viver é incômodo não só para si mesmo, mas também para o outro. Embora eu tenha sonhado a vida toda em encontrar alguém que morresse de amor por mim [e que até hoje talvez acho que não tenha encontrado :], não acredito em uma forma saudável de uma relação ser quando um dos dois tenha essa necessidade do outro.

Hoje, depois de ter passado por uma relação bonita e longa, percebo que quando as pessoas são inteiras, que sabem seus gostos, conseguem se ouvir e sabem seus limites poderão compartilhar com o outro, em uma relação amorosa, aquilo que elas têm de melhor e que eu acredito ser o recheio do biscoito.

Que coisa mais triste alguém precisar de mim para viver. Que escravidão seria para mim poder suprir a vida a uma pessoa? Um fardo pesado que eu acho que não combina com o amor. O amor que eu enxergo para hoje em minha vida é algo que seja leve, que agregue, que divida, que compartilhe caminhos com o outro. Desde que se esteja disposto, acredito, sim, ser possível entrelaçar objetivos e conquistas na vida sem o tom da necessidade.

Porque, à duras penas e perdas, eu aprendi que não preciso de ninguém pra viver. Hoje estou sozinha, coração vazio – não sem negar uma vontadezinha lá no fundo de que ele seja preenchido de mais cor, confesso. Haverá algum candidato por aí? rs… – mas sei que o rumo de meus próximos relacionamentos, no que depender de mim, vai ser o da leveza.

Porque acredito num amor leve, nesse nipe mesmo, sem pesar. Sem onerar do outro aquilo que ele não pode oferecer. É descer do pedestal e enxergar o outro como ser humano, com os defeitos que lhes competem. E vendo onde suas qualidades podem me acrescentar. Compartilhar os bons momentos, as alegrias, as doçuras da vida.

Como eu disse a Dudu, viver eu vivo. Trabalho, sustento financeira e emocionalmente a mim e a meus filhos, tenho meu apartamento e supro minhas necessidades intelectuais. Se eu vivo bem sozinha? Sim, vivo! Agora, se me pergunta se eu prefiro viver sozinha ou com alguém? Não titubeio, porque apesar da dor de minhas últimas experiências, eu sempre vou responder que eu prefiro compartilhar.

Porque eu acredito que somos também inteiros quando andamos em grupos, em pares, em turmas. Eu sou alimentada pelo amor. Minha vida é mais brilhante com amor. Prefiro viver com amor. E sem a necessidade, a obrigação, o pesar, acho que o contexto fica ainda mais bonito.

E, no final, emendei: “E você, Dudu, consegue viver sem mim?”.

E recebi o que eu jamais poderia querer escutar diferente:

Eu posso viver com outra pessoa, até com o papai, mas gosto mais de viver com você e Luca”.

Então, pronto, estou no caminho certo com meus filhos. Que bom que eles podem aprender um pouquinho daquilo em que eu acredito, sobretudo em relação ao amor.

*Imagem: Arquivo Pessoal

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11 comentários para "Você vive sem mim?" | Adicione o seu »

  1. HANNALU MENDES DE ANDRADE
    dez 19, 2011 @ 20:26 {Responder}

    ah que lindo texto, nunca parei pra pensar nisso!Mas é uma grande verdade!Seu filho lhe deu uma resposta brilhante, e você se posicionou muito bem frente a pergunta inusitada que ele lhe fez!
    Parabéns pelo blog!
    bjus
    http://meumundorosamel.blogspot.com/

    [Reply]

  2. Paula Lelis
    dez 19, 2011 @ 20:35 {Responder}

    Adoro ler o que você escreve. Parabéns, lindo texto, linda lição de vida!
    Beijos

    [Reply]

  3. Helen
    dez 19, 2011 @ 20:38 {Responder}

    Nossa Glau, você sabe que já sou fã da sua escrita. Seus textos sempre cheios de emoção. Mas acho que de tudo que já li seu, este texto está entre os mais belos. Concordo com cada vírgula sua. Foi assim que sempre tentei levar meus relacionamentos. Gosto do amor intenso e cheio de vida e sentimento, mas sem nos perdermos. Sem perder o prumo e o amor-próprio, esse tem que ser sempre maior. Pra mim é instintivo. E assim não culpamos o outro, por sentimentos nosso. Enfim, acho que está certa e Dudu e Luca vão crescer lindos, lindos, amáveis e seguros de si.

    Beijos

    [Reply]

  4. dez 19, 2011 @ 21:04 {Responder}

    Maravilhoso, profundo, espiritual.
    Quero sempre me lembrar dessa lição, Glau… e quero te pedir que, se eu esquecer de ensinar isso aos meus filhos – e sua afilhadinha – por favor, me lembra! Porque essa é uma lição essencial!
    Beijão

    [Reply]

  5. MARCELLA
    dez 19, 2011 @ 23:51 {Responder}

    Obrigada….esta precisando deste post hoje…Lindo..tudo de coraação

    [Reply]

  6. dez 20, 2011 @ 01:42 {Responder}

    Isso é lindo! Também não acredito em amor baseado na necessidade, aliás, odeio a idéia de alguém estar do meu lado porque precisa de mim, pior ainda se esse alguém estiver comigo por entender que eu preciso dele. Mas a resposta do Dudu é perfeita: vive-se sem o outro, mas preferimos compartilhar a vida com ele!

    Beijos

    [Reply]

  7. dez 20, 2011 @ 12:06 {Responder}

    Dudu aprendeu, intuiu e resumiu muito bem.
    :)

    [Reply]

  8. Marla Gass
    dez 20, 2011 @ 12:16 {Responder}

    Sempre me assustei com essa coisa do “preciso de você”, Glau. As letras de música me faziam sentir um ET ao pensar “ei, minha vida não é fulano! minha vida sou eu!”. Que bom que não, não sou um et, hehehe.
    Falando sério, em termos de relacionamento, gosto do “quero você”. Isso é uma escolha, uma decisão. Precisar é atender a uma necessidade que sei lá se tenho condições de suprir.
    A resposta do Dudu é fruto de uma criação que lhe ensinou que amor não reduzir, é ampliar, compartilhar.
    Bjs

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  9. dez 20, 2011 @ 15:54 {Responder}

    Muito lindo o post. Essa foi uma das primeiras coisas que eu aprendi na terapia: a nao depender de ninguem para ser feliz. Minha terapia ainda dizia que deixar nossa felicidade na mao dos outros alem de ser muita responsabilidade para a outra pessoa administrar tb era dar muito poder a ela e esse poder so nos podemos ter sobre nos mesmos. Hoje, mesmo estando num casamento gostoso e tendo com quem compartilhar minha vida, as vezes divago e penso que eu conseguiria viver sim sem meu marido..nao que eu deseje isso, mas eh bom pensar nisso para saber que estamos bem com nos mesmos. Parabens.

    [Reply]

  10. dez 29, 2011 @ 14:47 {Responder}

    É fácil cair na cilada do “eu preciso de você” … difícil, depois, é aprender a viver sozinho. Ou pelo menos saber viver sozinho, saber se bastar, saber encontrar felicidade tenha alguém ao lado ou não.

    Parabéns por ensinar isso aos seus filhos, certamente será um daqueles tesouros que eles levarão para a vida toda.

    Beijão do Caio
    @PaisModernos_

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  11. Graziella
    jan 06, 2012 @ 20:43 {Responder}

    Só de ler me deu uma dor enorme no peito , pois sei que pode parecer loucura minha mais não me imagino vivendo sem meu tão amado filho ….Doi , doi muito só de pensar !!!!!
    Acho que eu preciso de terapia ….!!!!!

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