01 nov 2011

Já bati. Não bato mais

Post por Glauciana às 09:16 em Mãe e Filhos


Eu já bati em meu filho.

#prontofalei

Doeu, sim, muito. Mais em mim do que nele, aposto. E doi agora também por tornar pública uma palmada, um tapinha. Por eu ter a coragem de abrir o meu descontrole com infinitas pessoas, muitas que eu não conheço, e que corro o risco de ser julgada. Como também devia ter doído na minha mãe nas inúmeras vezes em que ela me bateu. E não foram poucas. Eu me lembro de várias. Mas, a que mais me marcou foi quando, aos 12 anos, ela me deu uma surra de cinto e me fez ir à escola, no dia seguinte, de shorts curto para mostrar as marcas.

Na ocasião, eu tinha dado meu primeiro beijo. E tinha detestado. Voltava para casa correndo, com medo de ser flagrada, amedrontada. Quando dou de cara com minha mãe na esquina. Tive a péssima sorte de ser confundida com a garota que passava abraçada quarteirão adiante com o namoradinho. Apanhei por ter “mentido” que não estava abraçada ao garoto. Eu não tinha mentido. Não naquela cena específica. Eu não estava caminhando com aquele garoto, mas tinha, sim, beijado um outro.

Lembro-me da humilhação desse dia, muito mais do que da dor física. Durante muitos anos eu não consegui abraçar mais ninguém. Passava longe dos garotos, porque, de alguma forma, eles me fariam sentir dor. Anos depois, quando consegui conversar com minha mãe sobre isso, entendi que os abraços também causavam dores nela. Por isso, talvez, tamanho descontrole frente a uma adolescente descobrindo sua sexualidade.

Sobretudo por esse motivo eu não quero nunca mais bater em meus filhos. Não quero impor-lhes minha autoridade por meio do medo. Não quero mostrar-lhes a vida sob a ótica da opressão. Não quero que eles, assim como eu fiz quando pré-adolescente, escrevam frases horrorosas com relação à mãe, à vida e ao amor.

Eu fui uma criança desafiadora. Eduardo é uma criança desafiadora. Testa meus limites, fazendo-me perder o prumo vez ou outra. E, confesso, nesses últimos tempos parece que as coisas pioraram. Como domar os sentimentos não-lineares de uma criança que tem seu pai, de repente, fora de seu dia a dia? Como eu, como mãe, mas sobretudo como pessoa ferida, poderia dar-lhe a atenção e o conforto necessário se tudo o que eu tinha era medo, ressentimento e dor? Como sobrepor meu lado mãe ao meu lado mulher? Foi impossível. E, de novo, eu bati em meu filho.

Por sorte, tenho a dura – e boa – tendência a olhar meus comportamentos negativos para tirar deles a essência para meus próximos passos. E hoje, com os machucados quase totalmente cicatrizados, consigo perceber que o descontrole da mãe só piora o descontrole dos filhos. Hoje eu consigo perceber qual é o gatilho que dispara a explosão de Eduardo e Luca. E também sei como fazer para me acalmar.

Não é fácil, não. Mais fácil é bater, é encerrar a questão sem se dar ao trabalho de pensar nos motivos do descontrole. Sim, eu estou aqui, sobrevivi às surras de minha mãe, muitos podem dizer. Mas só eu sei de quantas marcas ficaram. E também sei das marcas – mais profundas – que ela carrega. É o fim do ciclo. Meus filhos não vão ter essas cicatrizes. Não, porque eu posso escolher. E eu escolho o amor ao medo.

*Imagem: We Heart It

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16 comentários para "Já bati. Não bato mais" | Adicione o seu »

  1. nov 01, 2011 @ 13:26 {Responder}

    É muito doído sim, já senti isso tb. Fui uma criança que não apanhou, mas uma mãe que já se descontrolou. Infelizmente o tempo não volta, mas é a cada dia que a gente tem a chance de melhorar, de fazer uma nova história. Para ensinarmos nossos filhos sobre controle, precisamos ter o nosso e nem sempre é fácil. Não se preocupe com a opinião dos outros, se é que se preocupa. Quem sabe de vc, só vc mesma. Parabéns pela coragem, já que muita gente é assim como a gente, mas a maioria não assume.

    [Reply]

  2. Lívia Ledier
    nov 01, 2011 @ 13:28 {Responder}

    Perfeito, justamente pq vivi o semelhante e não quero isso para meu filho.

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    Glauciana Nunes Reply:

    Que sorte a nossa, Lívia, por aproveitar nossas histórias não positivas para poder fazer diferente com nossos pequenos. Viva!

    [Reply]

  3. nov 01, 2011 @ 13:33 {Responder}

    Oi Glau!!!
    Ótim post…
    Parece que essas marcas e dores nunca saram né? O que mais fica é a dor do não entendimento, da surra sem uma conversa antes…Aos 7 anos levei uma surra dolorida da minha mãe que dói até hoje, não pela surra, mas pelo motivo. Tinha uma apresentação da escola sobre índio num shopping e minha mãe não quis me levar porque queria assistir novela e dormir. Fiquei indignada, triste com a escolha dela, sementender como ela poderia deixar minha apresentação de escola de lado pra assistir novela e demonstrei d meu jeito de criança; gritei, chorei escandalosamente no banheiro tomando banho com minha vó. Minha vó tentava explicar baixinho que eu não precisava chorar, mas minha mãe nao falou nada, entrou no banheiro e me deu umas 4 tapas de chinelo muito forte, eu tava toda molhada, doeu horrores. Fiquei 4 dias sem falar com ela.
    Eu já dei tapinhas em Clara de leve, pra dar um susto, adiantou um pouco, mas resolvi abolir isso porque de um tapinha pra uma surra é um pulo muito pequeno. E não quero vê-la chorar de ódio por mim se isso acontecesse.
    Não sou contra quem dê esses tapinhas leves, sem dor, porque sei que tem horas que a gente perde o rumo… mas aboli coompletamente aqui em casa, minh autoridade é minha voz ou um castigo de trinta minutos ou ficar sem os desenhos. Tá mais tranquilo e justo assim.
    Muito, muito legal o post!
    Beijão!

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  4. nov 01, 2011 @ 13:56 {Responder}

    Me identifiquei muito com o seu texto. Como você, também carrego marcar das “surras” da minha mãe. E também já dei uns tapinhas no meu filho, e confesso que doeu mais em mim do que nele. Assim, estou revendo minhas ações e tentando ser uma mãe melhor. Aprendendo a não se render ao calor do momento, da “raiva”.. Nós podemos escolher, e vamos conseguir.
    Beijossss

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    Glauciana Nunes Reply:

    É, Paula, querida, normalmente o grande problema está no nosso descontrole. É fácil identificar os “problemas” de nossas crianças, que muitas vezes podem estar ligados ao cansaço, ao sono, à fome, à contrariedade. Ideal é a gente se antever a isso e segurar o furacão que corre em nós

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  5. marcela feilhaber
    nov 01, 2011 @ 14:36 {Responder}

    Achei muito importante esta sua reflexao e espero que o desabafo te ajude. Eu tambem apanhei e nao quero jamais dar nem uma palmada em meu filho.
    Eu amo minha mae e temos uma relacao otima mas lembro com magoa dos episodios que ela bateu em mim ou nos meus irmaos. Me marcou e me entristece.
    Nao, uma plamadinha nao educa! Nao, uma palmadinha nao eh nada demais.
    A pior sensacao eh de achar que apanhou sem merecer e eu tenho muito claro que nao mereci. Minha mae batia porque estava nervosa e era a maneira dela de descaregar a raiva, nao e o caminho.

    [Reply]

  6. marcela feilhaber
    nov 01, 2011 @ 14:39 {Responder}

    PS: so nao concordo com o “doeu mais em mim do que nele” , vcs nao sabem o quanto doeu neles pra avaliar.

    [Reply]

    Glauciana Nunes Reply:

    Acho mesmo que você tem razão, Marcela. Refletindo sobre esse seu comentário, é isso: como saber se doeu mais em mim do que nele? É por isso que esse comportamento está banido da minha vida e da de meus filhos. Violência, não, de forma nenhuma ;)

    [Reply]

  7. Luciana
    nov 01, 2011 @ 15:56 {Responder}

    Olá, é realmete dolorido…tb já bati em meu filho e jurei que nunca mais faria de novo quando meu olhar de culpa se encontrou com o dele, olhar de pânico e medo. Não é isso que quero p/ mim e p/ ele. E acho que é até cruel impor a nossa vontade em cima deles que são indefesos e não tem como alternativa a não ser obedecer…quero que obedeça sim, mas por respeito e não por medo. Bjs!

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    Glauciana Nunes Reply:

    Me arrepia lembrar desse olhar de pânico, Luciana. De fato, nossos filhos têm de encontrar em nós segurança, apoio e acalanto e nunca medo ou pavor, não é mesmo? Mas, saiba, o mais legal de tudo isso é poder se questionar e não fazer de novo =) Um beijo com carinho

    [Reply]

  8. nov 01, 2011 @ 16:00 {Responder}

    Chorei lendo seu texto – como filha e como mãe. Tenho refletido muito sobre os caminhos mais fáceis da maternidade: a tv ligada que substitui a conversa, a autoridade que não permite o diálogo, a preguiça que impossibilita a relação. Não é fácil falar/conversar/ponderar quando estamos no meio do furacão e esse distanciamento reflexivo pode ser tão doloroso… mas só assim podemos crescer como mães e criar filhos felizes e seguros de si, que enfrentem o mundo de peito e coração abertos.
    beijos!

    [Reply]

  9. nov 03, 2011 @ 04:19 {Responder}

    Glauciana. Me emocionei e fiquei feliz por agora você enxergar. Fiquei feliz também com a clareza expressa pelas mães que fizeram comentários. Tenho esta campanha onde em cada casa deve haver uma plaquinha virtual que diz “Nesta casa não se bate” e te garanto, quando se internaliza este “mandamento” você fica mais forte para lutar contra a sua própria raiva e desequilíbrio e tanto pelo que conheço de mim quanto pelo que conheço dos outros sei que os desequilibrados são os adultos. Somos ignorantes. Sabemos quase nada do que é ser mãe ou pai ou quais são as fases do desenvolvimento das crianças, sabemos muito pouco e estamos aprendendo a pilotar com o avião já no ar!

    Não tenho medo de parecer piegas e citar Antoine de Saint Exupery em O Pequeno Príncipe: “Todos foram um dia crianças, mas poucos se lembram disto.” Vejo meu filho se desenvolvendo e lutando por seu lugar no mundo. Ele é a pureza, a vontade, a persistência, a imensa capacidade de perdoar, é só coisa boa. E neste furacão que deve ser a mente de uma criança, ele acha absolutamente normal se opor a mim e ao pai, dizer o que sente e o que pensa, dizer quando está com raiva, ou até não dizer, gritar ou chorar porque não sabe ainda se expressar ou negociar com os grandes.

    Se eu fosse ser como os pais do passado eu não permitiria tais manifestações de raiva e frustação, de quebra eu também repreenderia as alegrias e criatividade consideradas exageradas. A plaquinha me ajudou a simplesmente esperar a raiva dele passar e a ajudá-lo a aceitar aquilo que realmente não é possível fazer ou a aceitar que há coisas que nós os pais é que vamos decidir. A plaquinha me ajudou a controlar minha raiva porque eu sou muito raivosa, estressada. Ela faz eu me sentir covarde quando eu grito e quero jogar a responsabilidade da rotina puxada e do cansaço para cima de quem não pediu para vir ao mundo mas merece que o mundo seja muito bom para ela. A criança.

    O livro que abriu a minha mente e o meu coração foi “Momentos mágicos com seus filhos”.

    Um beijo de coração para ti!

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  10. nov 03, 2011 @ 13:24 {Responder}

    Glau,

    Fiquei com o coração na mão por saber que é quando estamos destroçadas como pessoas que tendemos a agir com o calor do momento. Deve ter sido mesmo muito difícil, mas estou aqui na lista das que te admiram por seu pensamento e decisão.

    Beijoss

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  11. nov 03, 2011 @ 18:57 {Responder}

    A palmada é um momento de descontrole nosso, essa é a que dói mais. Porque não ensina nada de bom. Já bati, poucas vezes, mas sempre me arrependo e vejo a incoerência do que fiz. Raríssimas as vezes em que fiquei calma para explicar e conversar com ele depois da palmada.

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