By paddloPayday loans

28 set 2011

A negação à amamentação tem raízes históricas

Post por Glauciana às 14:47 em Saúde

Estou lendo “A Cama na Varanda”, da sensacional Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora de livros de relacionamento. Na obra, ela traça um panorama da história dos relacionamentos em toda a humanidade e dos papeis desempenhados por homens e mulheres na sociedade para, depois, desembocar no casamento atual, dos nossos tempos, que passa por profundas transformações em seu conceito.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção é quando ela relata a forma como as famílias encaravam o nascimento de uma criança na Europa do século XVIII. Mais especificamente, com relação à amamentação. Buscando na história as raízes de pensamento e comportamento dominantes é possível entender que ainda há resquícios, embora inconscientes, dessas mesmas práticas entre nós, tantos séculos depois.

Leiam o trecho abaixo, que transcrevi na íntegra, de “A Cama na Varanda”, de Regina Navarro Lins, editora Best Seller:

O hábito de contratar amas-de-leite para os filhos generalizou-se no século XVIII, quando chegou a ocorrer a escassez de amas. A aristocracia já há muito usava esses serviços. É importante lembrar que nessa época não havia alternativa. Se a criança não fosse amamentada no seio, morreria.

Em 1780, das 21 mil crianças que nasciam anualmente em Paris, menos de mil eram amamentadas pelas mães. Dessas, 17 mil menos afortunadas iam para muito longe. Nas cidades pequenas, acontecia o mesmo. Os filhos iam viver no campo com as amas.

Vários argumentos eram usados pelas mulheres dos séculos XVII e XVIII para não amamentar seus filhos. Algumas alegavam a fraqueza de sua constituição, outras apelavam para a estética, acreditando que perderiam sua beleza. Se isso não fosse suficiente, tinham a ordem moral e social da época para as apoiar.

As famílias que se acreditavam superiores ao povo não consideravam digno amamentar elas mesmas seus filhos. Se assim o fizessem, estariam confessando não pertencer à melhor sociedade. A amamentação foi considerada ridícula e repugnante. Mães, sogras e parteiras desaconselhavam a jovem mãe a amamentar, já que a tarefa não era nobre bastante para uma dama superior.

Tirar o seio para alimentar o bebê a todo momento daria uma imagem animalizada da mulher e seria um gesto despudorado. Os maridos, por sua vez, consideravam que o aleitamento restringia seu prazer; era sinônimo de sujeira, e demonstravam aversão pelo cheiro de leite.

os médicos da época contribuíam para essa situação, proibindo as relações sexuais durante a gravidez e o aleitamento. Acreditavam que o esperma estragava o leite e o fazia azedar, pondo a vida da criança em perigo.

A criança era um empecilho para a mãe na vida conjungal e também nos prazeres da vida mundana, já que era muito deselegante cuidar de uma criança. Muitas vezes, os pais a entregavam imediatamente à ama, sendo comum organizarem uma festa para comemorar o nascimento, mesmo sem a criança estar na casa.

*Imagem: Daqui

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3 comentários para "A negação à amamentação tem raízes históricas" | Adicione o seu »

  1. set 28, 2011 @ 15:58 {Responder}

    Muito interessante o texto! Vou procurar este livro, acho que para quem está na batalha pelo direito à amamentação é importante conhecer tudo o que há publicado.
    Parabéns pelo blog.

    [Reply]

  2. set 28, 2011 @ 16:42 {Responder}

    adorei! e é triste saber disso e pensar em como as mães daquela época perdiam momentos únicos e perfeitos ao lado de seus filhos. Não fortaleciam vínculos, não ofereciam carinho, aconchego nem o alimento que estava ali e era desperdiçado.
    Mas eu vejo que hoje em dia a negação está muito ligada a falta de informação e conhecimento das mães que infelizmente acreditam em cada palavra dos médicos, que preferem a praticidade de uma cesariana e a receita do leite artificial do que ensinar e batalhar junto com a mãe pelo sucesso da amamentação – quem disse que não é uma batalha? Juntando isso com a modernidade, mulheres trabalhadoras, que precisam deixar seus bebês de 4 meses para retornar ao trabalho e não querem ter mais o trabalho de extrair leite – dá, dá muuuuito trabalho, mas é compensador. E ainda aquelas que não querem um bebê pendurado em seu seio o tempo todo, acreditando que estão sendo privadas de viver a sua vida, de fazer as suas coisas, de ter a beleza dos seios para sempre – pra que, para o marido apalpar?
    TRISTE…. :(

    [Reply]

  3. set 28, 2011 @ 17:25 {Responder}

    Glau, já li trechos desse livro… numa época em que minha mãe estava encantada com ele. Seu post me lembrou que tenho de ler o restante. Achei sensacional o trabalho da autora e a forma como ela escreve faz a gente não querer parar de ler! Mexeu muito comigo o capítulo em que ela fala que nos casamos pelos motivos errados. E quanto a esse trecho sobre amamentação… quer dor que deu de ler e não poder ao final dizer que é ficção. Mas é bom para entendermos o caminho que nos trouxe até aqui e é bom também para refletirmos sobre as verdades absolutas que defendemos hoje. Será que amanhã não estaremos chocados com algumas delas??!
    Beijooos

    [Reply]

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