Pais afoitos = filhos inseguros
Se na minha época de criança o que imperava eram pais podadores, o que hoje existe são pais abobalhados e afoitos, que não deixam a criança apenas ser e existir

Fabio caminhando com Eduardo. Porque ele não pode caminhar pelo filho, mas pode estar ao seu lado durante o trajeto
Foi esse o pensamento que brotou em minha cabeça depois que li um trecho da cobertura, feita pelo twitter, do 3º Seminário Crescer, que ocorreu ontem (20/6) em São Paulo. A atriz Denise Fraga, uma das palestrantes do evento, disse que os pais atualmente são muito afoitos, abobalhados, que não deixam os filhos apenas ser/existir.
E eu acho bem isso mesmo. Eu mesma, em muitos momentos, me flagro tentando manipular os atos de meus filhos. Não por mal, longe de mim, mas por ser naturalmente de uma personalidade afoita e ativa demais. Acabo me intrometendo em suas conversas, sobretudo as de Eduardo, que eu vejo ser tão comunicativo quanto eu. Tenho tentado me policiar para deixá-lo criar seus diálogos com as pessoas, sem uma mãe interpelando-o a todo momento a “responder o que o titio lhe perguntou“.
Seguro minha mão rápida, que insiste em colocar a pecinha do lego encaixada na outra, quando as ainda não maduras mãozinhas de Luca tentam – com um esforço quase homérico – colocar as formas no lugar certo. Faz parte do aprendizado dele, do seu momento, de sua capacidade cerebral e motora. Faz parte da vida. Do errar e do aprender. Eu não posso fazer por eles.
Como, até hoje, minha mãe não pode fazer por mim. E não trata-se de me ajudar a recortar um papel de forma reta, como eu tento fazer com Eduardo. Não! Minha mãe, por mais que queira, já não tem como retirar-me as situações que me fazem sofrer. Não pode impedir que as lágrimas escorram por meu rosto, por mais que lhe doa mais que em mim mesma.
Tento entender e me conter… apenas para deixar meus filhos serem do jeito que podem ser em determinado momento. Não trata-se de omissão, de não educar, de não estar atenta. Essa culpa eu tenho tentado deixar pra lá. Como tão lindamente e afetuosamente – embora ela se assuma não afetuosa sempre – a @samegui escreveu aqui. Essa, dentre a minha coleção de culpas, eu consegui deixar passar. Optei por fazer assim.
É da natureza o apenas deixar viver. Apenas observar cada tentativa de meus filhos e mostrar a eles que eu estou do lado, sempre. No caso de precisarem de ajuda, que me peçam, que num pulo eu saltarei as maiores distâncias para fazer-lhes o que me for possível. Mas, a primeira tentativa poderá – e deverá – ser sempre deles, como tem de ser a vida.
Padre Beto, um sacerdote que eu admiro muito, apesar de conhecer tão pouco, escreveu nesta manhã em seu twitter: “@betopadre: O ser humano tem que assumir de modo definitivo a condição de ser solitário esteja ou não acompanhado“.
Por mais dolorida que seja, essa afirmação deve soar em nós como um bálsamo. Pois, à medida que acreditamos que podemos ser nós mesmos, com nossas próprias capacidades e aprendizados, podemos ir sempre adiante. E, contando com os outros quando necessário, poderemos desenvolver a segurança e autoconfiança na dose exata para nos fazer ir sempre além, construindo, aprendendo e ensinando.
Que eu e você possamos ensinar isso a nossos filhos e conter essa mania afoita de interpelar, de querer fazer por eles, de não respeitar seu tempo de maturação, sua percepção da vida e das coisas ao seu redor. Que possamos, sim, ao contrário, guiar-lhes ao caminho que julgamos bom para eles, mas que eles próprios possam trilhar a caminhada. Eles cairão, tropeçarão, pegarão a rota errada, vez ou outra, mas que fiquemos sempre ao lado, como um GPS, oferecendo um atalho quando eles pedirem.
*Imagem: Arquivo Pessoal










10 comentários para "Pais afoitos = filhos inseguros" | Adicione o seu »
Acho que esse eh um dos principais desafios do papel de mae, eh aceitar que nossos filhos precisam tb crescer com as frustraçoes, com as decepçoes, para que la na frente eles aprendem, por eles so.
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Permitir que os filhos se frustrem é, antes de mais nada, dar-lhes subsídios para aprender a vencer. Quem tem tudo nas mãos, recebe tudo pronto, tem seus desejos por mínimos que sejam atendidos prontamente, na primeira oportunidade em que enfrentarem alguma resistência, alguma adversidade, não saberão o que fazer. É difícil para nós mães permitirmos pequenos sofrimentos aos nossos filhos, mas eles certamente evitarão os grandes sofrimentos mais tarde.
Abraços
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querida,tudo de bom seu post…
Eu por vezes me seguro em muitas situações, até mesmo com o dever de casa, costumo ajudar,mas não faço por eles,apesar de querer muito mostrar a resposta,que está ali bem na cara e eles não estão vendo…é um exercício diário…
Ontem vi na Ana Maria uma mensagem,em que ela fala e lembra de que quando era criança e pedia ao pai para “começar o começo” da tangerina, dar o primeiro furinho, acho que nosso papel é esse, começar, dar o caminho e eles vão trinlhando,mas sempre sabendo que estamos ali ao lado…Grande bj, sua querida!!!
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Ainda nao tenho filhos, mas como ja edtou me preparando, sempre leio sobre o assunto.
Post muito bom. Me alertou para algo que nunca tinha parado para pensar, embora seja tao visivel.
Obrigada
Dollored
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Ai, amiga! Parece que vc escreveu este texto para mim!
Ontem, ouvi o Cauê brincando de um jeito muito violento. Eu o chamei e disse:
- Filho, que tal vc brincar de amigos que são felizes, que riem, que brincam juntos? – eu estava tentando mostrar uma outra abordagem para aquela violência toda.
Ele me respondeu:
- Mãe, a brincadeira é minha, eu brinco como eu quiser.
Minha alma saiu do corpo e voltou, tamanho o susto. Ele ainda vai completar 4 anos e já sabe exatamente isso… como assim? Não achei um desrespeito dele e acabei achando que eu é quem estava desrespeitando o espaço dele… até pensei em escrever um post sobre isso…
Adorei!
Ah, essa semana reclamei para meu pai que o Cauê anda melancólico e eu não sabia o que fazer para ajudá-lo. Ele me respondeu: “É no sofrimento que a gente cresce, Sô”…
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Não podemos tirar os possíveis sofrimentos dos filhos, mas temos que mostrar para eles que estamos ao seu lado caso eles vierem. Protege-los é nosso dever, mas temos que estar cientes que há uma medida e um limiar de difícil identificação nesse ponto, ou seja, entre o mundo familiar e o mundo real. Claro que queremos que eles andem com suas próprias pernas, no entanto somos receosos porque vivemos num mundo muito inseguro e repleto de violências que exigem um cuidado maior mesmo. Beijos
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Quanta verdade, as vezes nos atropelamos mesmo… Eu sempre procuro respeitar o tempo dele, sempre tentei, tanto que ele foi falar Mamãe com 18 meses e nem por isso eu estava em especialistas arrancando os meus cabelos… Ansiosa, claro que eu estava, mas hoje me esbaldo ao ouvir cada mamãe…
O tempo deles é muito importante, e se nós ficamos tranquilos com isso, eu creio que eles se desenvolvem melhor, mais seguro e isso acrescenta muito pra auto-estima deles.
Beijos
Karin
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É um desafio pra nós, os pais, sabermos até onde ir, ne? Eu me deparo com esse desafio há algum tempo porque sou professora de crianças e a gente fica sempre querendo ajudar demais! É quase como a coisa do casulo da borboleta, né? Precisamos ajuda-los, mas não podemos tirar-lhes a essência, aquilo que vai acompanha-los pra sempre. Que desafio! Me da um medinho… Mas também me dá uma alegria de pensar que participo dessa jornada com meu filho…
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Nossa, difícil encontrar esse equilíbrio. É um eterno aprendizado. Vamos caminhando, errando, acertanto….
Adorei o post.
Bjos!!!
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As crianças sentem a ansiedade dos pais e por isso crescem inseguras. Seguir o instinto muitas vezes é melhor do que seguir regras. Amor nunca é demais!
Beijus,
Esse tweet do padre Beto, só entendemos a substância quando amadurecemos – muito importante saber conviver consigo e tomar decisões sem trelas emocionais – vi amigas da minha mãe aturdidas com a síndrome do ninho vazio e a minha mãe bem feliz, declarando que uma nova fase começava em sua vida, só para ela! A mulher não deve esquecer a sua individualidade dentro da maternidade ou mesmo no casamento. Os filhos saem de casa e conseguem falar sem a nossa ajuda
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