Padrão de homem? Não, não
O homem de verdade é aquele que gosta de futebol, troca a lâmpada de casa ou gosta de carros?
Refleti sobre isso hoje no almoço, quando a televisão do restaurante estava sintonizada no programa de esporte, e mostrava o Santos levando um chocolate do Colo Colo, na Libertadores.
Eu gosto de futebol, assisti boa parte do jogo com meu marido-esportista-alucinado-futebolmaníaco, mas prestei atenção mesmo que todos, mas leia-se, todos os homens do restaurante pararam de mastigar e ficaram paralisados olhando pra TV.
Exceto um. Perguntei a ele se não torcia para nenhum time e ele disse que não, que apenas simpatizava com o Corinthians. Que não entendia nada sobre futebol.
Para mim, que vivo diariamente a testosterona gritar em casa, onde todas as TVs da casa sempre transmitindo SporTV, BandSports ou ESPN, que os rádios do carro ou estão no Estádio 97 ou naquela rádio AM tenebrosa com locutor que não se entende nada… confesso que ver um homem não gostar de futebol é, no mínimo, atípico.
Mas, aí, refletindo, vi a grande besteira que é nos apegarmos nessas verdades absolutas, máximas tão recheadas de preconceito e perfis furados. Ao mesmo tempo que meu marido é louco por esporte não dá a mínima pra carro, por exemplo. E se queima uma lâmpada em casa a gente fica no escuro por dias.
O exemplo máximo de homem que tive, por toda a vida, meu pai, gosta muito de carro e moto, faz todo o serviço elétrico, hidráulico e de manutenção em casa, mas não sabe nem o que é uma bola em campo. Não entende porque a pelota gira de um lado para outro.
E ele é um dos homens mais legais que eu conheço. Modelo de integridade, responsabilidade e honestidade. Com ele aprendi que caráter vem antes de tudo na vida, que para ser uma pessoa de respeito é preciso, antes, respeitar as coisas e as pessoas. Sua masculinidade sempre foi demonstrada de maneiras diversas, que não suando testosterona em um jogo de futebol.
E é isso que eu tento passar para meus filhos, meninos, apesar do pai rolar no chão da sala com eles, simulando um octágono de UFC, que eles poderão, no futuro e se quiserem, optar por gostar ou não de futebol. Que eles poderão chamar o eletricista toda vez que uma lâmpada parar de acender. Que eles poderão, se quiserem, dançar balé ao invés de fazerem judô [pai deles me matando em 3, 2, 1].
Eu acho que essas máximas sobre homens e mulheres são a maneira mais fácil da gente ir perpetuando preconceitos e ideias ultrapassadas por aí. Acho que a sociedade do futuro está, de certa forma, nas nossas mãos, que criamos filhos hoje. As meninas e meninos de hoje serão homens e mulheres num amanhã bem próximo que se relacionarão, que amarão, que se casarão, que terão amizades.
E que tipo de universo queremos que nossos filhos encontrem lá na frente? Um mundo marcado pelos clichês, pelos comportamento de senso comum, sem refletir, apenas reproduzindo conceitos passados dos pais para os filhos gerações e gerações?
Não, obrigada! Não para mim, não para meus filhos, não para meus netos. Sei que o mundo não pode ser mudado por mim, seria pretensão demais querer isso, mas gosto muito da história das andorinhas, que só não fazem nada, mas que juntas fazem um verão inteiro. Se cada um de nós, pais e mães, conseguirmos dar a nossos filhos um olhar diferente para as relações, para as verdades absolutas, para os clichês baratos, para os costumes, já é um bom começo.
Para mim importa menos se um homem não desentope a pia quando acumula resto de comida nela. O que eu realmente valorizo são seus ideais, a forma como trata as pessoas, o que vê do mundo, como se relaciona e, sobretudo, de que forma se posiciona com as mulheres.
*Imagem: Daqui











6 comentários para "Padrão de homem? Não, não" | Adicione o seu »
Mto legal o texto Glau! Acho que a base de qualquer mudança é perguntar ” Por que?” Por que eu tenho de seguir um modelo pronto por ser homem? Eu tb vivo futebol, troco lâmpada, mato barata, dou o lado de dentro da calçada pra mulher, abro porta e a deixo entrar primeiro, mas não entendo e nem ligo pra carro, é só um meio de locomoção pra mim. Agora quanto à pia entupida por resto de comida, use aquela telinha que ela naum entope, hehehe
[Reply]
Também tenho um filho homem, com quase 23 anos. Sempre procurei mostrar pra ele que essas coisas ditas “de macho” não tem que ser as suas preferidas e que uma mulher admira mais a sensibilidade de um homem do que seu músculos ou aptidões com a bola de futebol. Também não fico ensinando minhas filhas a brincarem de bonecas e serem mini-mamães aos 3 anos de idade, mas elas fazem isso por imitação, é o que mais me veem fazendo.
Abraços
[Reply]
Ai, Glauciana, ia comentar, mas acabei escrevendo tanto que o comentário ia ficar maior que o post. Aí resolvi escrever um post no meu blog.
Mas eu concordo com você. E fico até irritada com a atitude das pessoas que insistem nisso. É muito preconceito.
[Reply]
Davi no clubinho brincando de cozinhar, como vê o pai fazendo, e a menina olha estranhando e diz que menino não brinca de casinha, aponta para o carrinho. Eu digo a ela que homem também cozinha, que o papai do Davi faz isso também, e é menino. Ela se conforma e passa a dividir a brincadeira com Davi tranquilamente. Uma idade em que ainda é possível flexibilizar, abrir, amplia. As consequências dos modelos rígidos a serem seguidos podem causar muita decepção e sofrimento na vida adulta.
[Reply]
Nossa, falou tudo e mais um pouco! Nunca gostei de futebol, e sofri muito quando era menor, pois meus amigos sempre me zuavam “ah.. que menininha, nao gosta de futebol, bichinha”. Depois de um tempo parei de ligar, pois enquanto os “machões” jogavam futebol, eu pegava todas em volta.
Hoje em dia faço ioga em vez de musculação (como a maioria), e não ligo a mínima pro que pensam de mim. Sexualidade não se confirma através de esporte, músculo, palavrão, porrada. Se confirma pelo quão bem você trata as pessoas e as mulheres à sua volta.
Muito bom o blog! Virei fã.
[Reply]
Genial o texto. Não preciso enquadrar o meu filho em um esteriótipo. Ele que escolha quais suas configurações, meus pais me criaram assim, não tem dessa de azul, rosa, futebol, cozinha.
[Reply]