Nota 10?

Recebi uma sugestão de pauta de um amigo muito querido, por e-mail. Sua mensagem me dizia assim:
Hoje pela manhã, vi o resultado do Carnaval do Rio e tinha visto o de SP, curto aquele lance de ..harmonia………………… Dezzzzzz…….. Bateria….. Dezzzzzzzz.
Fiquei pensando, como é nossa vida quando vamos pra avenida?? Quais as notas que recebemos no final de uma fase??
Mãe……dezzzzz
Amiga…..dezzzzz
Filha……9,35….
Cúmplice ……dezzzz
Profisisonal….9.25….
Como somos avaliados? E se somos avaliados. Passamos na avenida sem ser vistos?? Ou somos “ovacionados”?
Aí fiquei a manhã inteira pensando nisso, matutando, como é bem natural de mim quando recebo algum tipo de questionamento, como esse tão querido daí de cima.
E trouxe, claro, para o universo materno infantil. Juntei os pensamentos com uma matéria que li ontem, indicada pela @blogdati, da revista Crescer, no qual uma psicóloga norte-americana afirma, depois de estudos com várias famílias, que todos os pais têm predileção por um dos filhos.
Vou tentar juntar os dois pensamentos e tentar clarear a linha de raciocínio. Eu não concordo, nem de longe, que um pai ou uma mãe ame mais um filho do que outro. Sei lá, sei que não posso falar por mim e pela concepção de amor que tenho, mas não me passa pela cabeça que um pai e uma mãe que criem um filho possam amar menos do que o irmão. Não, não pode ser.
Um dos pontos levantados na reportagem é que o filho mais “amado” pode sofrer algumas consequências negativas, como o excesso de expectativas depositadas sobre ele. Nisso eu concordo muito. E diria que é quase inevitável não criarmos expectativas sobre nossos filhos. Creio mesmo que isso seja uma forma de amor, porque normalmente você almeja que eles sejam felizes, que tenham sucesso, que conquistem coisas materiais. E no meio de todos esses desejos passam as expectativas. Outra forma mais perigosa é quando nos projetamos em nossos filhos, jogando neles a responsabilidade de conquistar ou ser aquilo tudo que não conseguimos.
Essas duas situações descritas acima são extremamente perigosas e podem ser muito nocivas, principalmente por conta da aprovação que vem sujeitada pela expectativa. É lógico e a ideia é simples: se você cria uma expectativa que seu filho, um dia, vai ser um homem culto e, na fase de alfabetização, ele demora um pouquinho para aprender a ler e escrever. Pronto. Seu mundo já caiu e um processo que poderia ser bem natural, tranquilo, no tempo de amadurecimento neurológico da criança, pode ser traumático para a vida toda. Por conta de um objetivo muito subjetivo, todo o processo pode ser descaracterizado, deixado de lado, perdendo a importância. E aí, me pergunto: e a avenida? O importante é chegar e ganhar 10 na hora da apuração ou, então, aproveitar o desfile, levantar a galera, emocionar o público, compartilhar alegria. A Unidos da Tijuca fez isso com quem estava na Sapucaí e não levou o título de melhor escola de samba do carnaval do Rio de Janeiro. Por isso, não se leva em consideração tudo o que fez?
E aí, seu filho que “patina” na alfabetização não é, necessariamente, nota 10 no quesito educação, cultura? Será que sua avaliação foi por todo o contexto ou sobre uma expectativa “frustrada” e exagerada que depositou-se na criança? E, vou além, os valores de julgamento podem ser tão discrepantes, dependendo de quem julga. Fazendo a analogia com o carnaval, cada jurado opina em apenas um quesito, especificamente naquilo. E será que funciona mesmo assim? Será que a bateria não sofre a influência do figurino? Não ficaria mais harmônica de acordo com o grito da galera? Esses valores emocionais não são levados em conta e nem poderiam, pois esses aspectos subjetivos não podem ser colocados em disputa.
E na vida da gente é exatamente assim. De repente, seu filho não será um homem, necessariamente, culto. De repente, ele demorou um pouco mais para aprender a ler e escrever, mas tem um talento natural para as artes, pinta como nenhum outro. E aí? Já foi descaracterizado do hall dos cultos? Talvez não. Somos contexto, somos muito mais que fragmentos, que podem ser julgados aleatoriamente.
E, nós, como pais e mães, devemos estar atentos a isso. Primeiro, em controlar nossas expectativas e sonhos sobre nossos filhos e, depois, a ter uma visão mais holística e completa do todo, da personalidade deles, daquilo que gostam de fazer, de como lidam, em conjunto, com os fatores da vida. De repente, ele não lê o quanto eu, jornalista e escritora, gostaria que ele lesse. Mas, ele canta e sabe de cor algumas músicas do Chico Buarque. Em que quesito ele estaria sendo julgado? Ganharia de você um 5,0 em leitura e um 10,0 em música? Ou essas notas não entrariam aqui?
Enfim, a discussão é longa, deve ter dado muita dissertação de mestrado na academia, e meu raciocínio parece ter ficado confuso, mas é porque esse assunto mexe comigo mesmo. Acho que a reflexão está aí e é um bom começo de conversa, sobretudo daquelas de bar. Puxe a cadeira e leve a discussão adiante. Mais uma, garçom!
*Imagem: Campanha da LBV Criança Nota 10 – Sem Educação não há Futuro!










5 comentários para "Nota 10?" | Adicione o seu »
Glau,
Conheço uma mãe que têm 3 filhos, mas que trata um com extremo amor e paixão, e o outro com fatla de afeto.
é triste e uma fez questionei ela, e a frase foi a seguinte: ” eu amo mais a minha caçula, pq ela foi a filha q desejei, o mas velho é homem, não precisa de mim”
Na época eu não tinha filhos e fiquei chocada, hj que tenho meu filho fico e observo o comportamento da familia, já consigo ver o quanto as crianças sofrem com isso!
Nenhum um filho é igual, o amor não igual, Mas cabe aos pais não serem diferentes com os filhos e seus sentimentos!
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Oi Glau! Interessante essa sua linha de raciocínio e essa é uma área que me afeta muito.
Não sei como será quando tiver outro filho, o que sei que vivi na pela a diferenciação entre filhos…não sei se há amor de mais ou de menos, mas sei sim que pode existir uma diferença, que ainda que não seja baseada em mais ou menos amor, é baseada nas afinidades entre as pessoas, inlcuindo entre filhos e pais.
E como disse a Fanny, ainda há a diferença de tipos de vida que se leva no momento em que se ganha esse ou aquele filho, enfim, acho que isso é bem mais complexo e mexe muito com os sentimentos de ambas as partes.
Beijos,
Nine
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Cara… esse assunto mexe comigo tb. Eu sempre me senti menos amada na minha família, mesmo meus pais repetindo sempre que não era essa a verdade. O fato é que eu me sentia muito assim e vivia à sombra do meu irmão mais velho, que era brilhante em tudo! Isso me trouxe muitos problemas em vários níveis!
Mas como a Nine, ainda tenho um filho só, e me pergunto como será quando tiver o segundo, o terceiro… aliás… meu filho é um bebê e quando ele começar a crescer e as coisas não forem exatamente como eu esperei e tudo… sei que muitos dos comportamentos que odiamos nos nossos pais, tendemos a repetir, principalmente se não nos policiamos ou não buscamos crescer e nos conhecer profundamente….
Soa horrível o que escrevi, mas é uma indagação genuína. Amo tanto meu filho, incondicionalmente… quero muito poder amá-lo ao ponto de ajudá-lo a ser uma pessoa melhor, um melhor ele mesmo…
entende?
beijos
mix
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Excelente!!! Adorei o post. Realmente, e preciso nos policiarmos e refletir bastante sobre as expectativas q podem causar frustacoes. Vou dormir pensando nisso hoje.
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OI Glau,
não li a matéria da crescer mas vou lá. Também não acredito que uma mãe ame mais um filho do que o outro. Estou levando por mim. Acho que pode até existir de ter mais afinidade com um do que com outro. Os temperamentos serem mais parecidos, etc…As vezes percebo em algumas amigas que elas depoistam as frutações em relação ao marido e/ou família deste nos filhos. Tipo: você é igual ao seu pai. Também acho isso muito perigoso. Temos que ter muita atenção para valorizar o que os nossos filhos tem de melhor, cuidar para não causar frustrações e ajudá-los a desencanarem quando se sentirem preteridos. Adorei o post. É para pensar muito.
beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com/
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