Arte: bonito ou feio? Não!

Recebi um e-mail da escola onde Eduardo estuda dizendo que fizeram parceria com uma renomada rede de ensino de língua inglesa. No início achei interessante, apesar de não achar ainda pertinente para meu pequeno, de apenas 3 anos. Particularmente, acho cedo para começar a aprender outra língua, já que nem é alfabetizado em português ainda. E, além do mais, acredito que criança nessa idade só tenha mesmo que brincar e não ter compromissos pesados, como um curso de inglês. Mas, enfim, essa é só a minha opinião pessoal. O que quero abrir para discussão hoje é um outro ponto.
Primeiramente, a pedagoga, dona da escola, enviou um e-mail aos pais anunciando a parceria e avisando que o curso de inglês entraria em contato conosco para dar os detalhes de valores e carga horária. Em seguida, recebemos a mensagem da diretora comercial contendo essas informações.
E eis que levei um susto! Com o valor do curso? Não! Isso estava até bem acessível, considerando que a escola tem boa recomendação no ensino de línguas e é bastante conhecida. O que me assustou e eu não deixei passar batido é que no e-mail a pessoa informava que nessa semana as crianças fizeram um desenho sobre o tema carnaval e que o melhor ganharia uma bolsa de estudos integral, de 100%.
Gente, como assim o melhor desenho?
Sim, sou chata, podem começar a crucificação.
Explico-me. Não enxergo a manifestação artística como algo a ser classificado entre melhor ou pior. Eu vejo a arte de forma muito abstrata e que chega até nós de diversas maneiras. O que é belo para mim, pode ser feio para você. O que me toca, pode não provocar nenhum estímulo em você. Não há, ao meu ver, esse tipo de juizo para uma obra de arte. E, deixando de lado a corujice, acho sim que um desenho escolar se enquadra em obra de arte, com todas as devidas proporções que cabem nesse contexto escolar.
O conceito de arte é extremamente subjetivo e varia de acordo com a cultura, com o período histórico ou até mesmo do indivíduo em questão, que tem seu repertório, sua personalidade e suas vivências. Não se trata de um conceito simples e vários artistas e pensadores já se debruçaram sobre ele.
O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, segunda edição), em duas de suas definições da palavra arte define:
Arte
Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovaçã…a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos ….
Eu, por exemplo, sou muito tocada pelas obras de Monet. Não sei explicar o porquê, mas aquelas ninfeias, aqueles campos floridos, aquele ar francês bucólico mexem de um jeito comigo, que para mim é a coisa mais bela do mundo. A despeito, por exemplo, de Salvador Dali e Picasso – dois grandes mestres das artes plásticas – mas que não suscitam em mim a emoção e estímulo que Monet causam. Mas, aí dizer que a obra de Monet é melhor que a de Dali ou Picasso é um crime. Demonstra, no mínimo, um desconhecimento básico sobre artes, ensinado nas mais iniciantes aulas de educação artística de qualquer escolinha. E, quero frisar, não sou conhecedora de arte… não tenho a menor noção, só conheço uma meia dúzia de pintores e escultores mais famosos. Nunca fui estudiosa do tema nem frequentei grandes museus.
E aí que eu fiquei muito preocupada com o conceito de arte que a colégio de meu filho o está ensinando. Na mesma hora liguei para a pedagoga que não sabia do teor do e-mail enviado para nós, pais, pela diretora do curso de inglês. Expliquei a ela a minha preocupação e em como eu ficava preocupada como essa distinção feita em um desenho, manifestação importantíssima de sentimentos das crianças em primeira infância. Ela me explicou que a escola pensava da mesma forma que eu e que tomaria as providências.
Por sorte, tudo não passou de um engano. Os desenhos foram feitos, sim, mas eles vão sortear, dentre todos, uma bolsa de 100%. É, eu comemoro o fato de isso ter sido um engano, mas ainda fico de antena em pé, pois acredito que a escola, onde meu filho passa metade de seu dia (em que está acordado), tenha que ter os mesmos valores morais e intelectuais nos quais eu acredito. Senão, não fará o menor sentido.
E vocês, acham que eu exagerei? Fui a nerd da arte agora? Vocês participam dessa forma na escola de suas crianças? Compartilhem comigo!
*Imagem: Home do Google, em 16 de fevereiro de 2011, com o logotipo desenhado por uma aluna brasileira, de 9 anos.










11 comentários para "Arte: bonito ou feio? Não!" | Adicione o seu »
Você tocou em dois assuntos que me pegam também: segunda língua e arte. Fui professora de artes por 10 anos, 7 em escola bilíngue. Posso falar então…
Vc está comberta de razão. Não pode existir essa bobagem de competr com uma produção artística, especialmente na infância. Arte é individual, íntimo, expressivo, cheio de sentimentos, principalmente na infância. Colocar produções em competição seria comparar aspectos ítimos e sentimentais das crianças: um crime.
Maaaas, tenho por certo que a escola e a escola de inglês não enxergaram o desenho como arte: até porque um “desenho com tema carnaval” não é trabalho artístico que se considere (em uma escola minimamente preocupada com esse eixo do aprendizado)
tenho visto em muitos blogs o que as mães recebem em casa como os “trabalhos de artes” dos filhos.
Desenhos xerocados para colorir, atividades engessadas num tema, produções mágicas, como aquela de colocar tinta e dobrar o papel, over and over, and over. Nada criativos, nada sensoriais, nada que permita que a criança participe ativamente do processo. Uma sequência de desenhos de carnaval… é preocupante.
Eu sempre digo que cabe questionar a escola. Sempre sempre, vc fez certo. Que bom que era engano e que fique claro que essas produções que UTILIZAM AS FERRAMENTAS DAS ARTES VISUAIS PARA DAR APOIO A OUTROS EIXOS DO CONHECIMENTO NÃO SÃO TRABALHOS ARTÍSTICOS. SÃO SOMENTE FERRAMENTAS EMPRESTADAS DAS ARTES PARA SOLIDIFICAR CONHECCIMENTO DE OUTRAS ÁREAS.
mamães fiquem de olho!!
(espero não ter sido a chatona)
sobre inglês, falamos depois!
bjo
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Ai Glau, é sempre um prazer ler seus textos tão sinceros! A gente sente a sua emoção na escrita. Concordando ou não com eles, é sempre um prazer!
Então tenho alguns comentários, eu compartilho da sua opinião em relação a “criança dessa idade só tem que brincar!” Eu SEMPRE digo isso e é o que realmente acredito! Com relação ao inglês como qualquer segunda língua, acho que depende muito do modo como ela é apresentada e inserida na vida da criança. Posso dar o exemplo da minha casa. Como temos a intenção de morar fora, eu queria que a transição de línguas fosse a mais tranquila possível, então, converso com ele em inglês desde bebê, ele assiste filmes, escuta músicas em inglês e isso sempre foi natural aqui em casa. Se ele entende, ainda não sei, não fico testando, ele responde a algumas coisas que eu falo, mas responde em portugues e eu não o forço. Pra mim, nesse momento, o importante é o contato, Saber que existe outra língua, para que a mudança não seja tão traumática.
Já a questão das aulas realmente não sei se o colocaria tão cedo. Gosto da forma como a escola do Luiz Henrique encara a arte e a justificativa que me deram para não inserir curso de inglês na idade deles (lá é só a partir de 5 anos). Na escolinha dele a arte é o tema principal e é encarada como forma de expressão e construção de conhecimento. Quando fomos apresentadas ao curso de inglês a própria coordenadora logo nos avisou que era contra inglês para crianças menores de 5 anos. Ela nos explicou que como a escola usa a arte para construção do saber não achava adequado inserir esse curso para crianças menores de 5 anos e nos deu o seguinte exemplo:
“Quando a professora conta uma história isso mexe com a imaginação da criança. Depois pedimos para que ela represente o que quiser em forma de desenho ou pintura sobre suas impressões dessa história. Pra algumas crianças, o lobo-mau por exemplo é verde e roxo, para outras é um animal de uma perna só, enfim, cada um representa de uma forma. Nas aulas de inglês a criança vê a imagem do lobo-mau como é representada no livro que é então traduzida para o inglês (essa é a forma como é feita aqui) e passa a copiá-lo, tolhendo assim a criatividade da criança.” Isso foi UM exemplo, claro que nós mesmas contando histórias em casa, mostramos as imagens para nossos filhos, mas como os primeiros anos do aprendizado de uma nova língua trabalha muito com vocabulários, concordei que tudo seria na base da imagem pronta.
Por isso concordo com você em relação à importância da arte ser encarada como algo abstrato e que seja independente de classificação de melhor ou pior. Também acharia um absurdo colocar “nota” e fazer disso uma competição nos desenhos de nossos pequenos. Pra mim, a escola perfeita para uma criança de 3 anos é uma escola divertida que crie neles a vontade de ir para escola (sem competição né minha gente?!).
Parabéns pelo texto Glau!
Beijos
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Oi Glau,
Eu acho que vocês está certíssima na sua reclamação. Também acredito que um desenho na idade em que se encontram nossos filhotes, é muito significativo e demonstra o que a criança está sentindo sim. Acho que não existe arte melhor ou pior, concordo plenamente contigo. Nem sempre o quadro que me toca vai ser o que você vai apreciar e assim por diante. Eu acho que faria a mesma coisa e reclamaria também. Por sorte foi só um engano, mas é bom estarmos atentas, pq esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer uma de nós. Eu estou sempre muito atenta à todos os valores que a escola tenta passar, por que tem que condizer com o que eu penso sobre o assunto. Afinal a escola deve ser uma extensão do que nós ensinamos em casa e cabe a nós, pais e mães, zelar para que esses valores estejam de acordo com o nosso pensamento também.
bjos e adorei o post, me fez refletir bastante.
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Concordo com você inclusive que mãe é chata. E tem que ser.
A gente se mata para ensinar valores em casa, a escola tem sim que afirmar tais ensinamentos.
Ainda bem que foi um engano.
Criança tem que aprender a competir, a lidar com a derrota e tal.
Mas quand envolve emoção isso não faz o menoooor sentido!
Um beijo
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Querida:
Nossa, eu mais do que concordo com vc! A fase em que eles estão é, sim, apenas para brincar.
Se uma outra língua for apresentada, que seja como brincadeira, cotidiano, nada a sério, nada que seja tomado como curso. Além disso, e o que motiva sua pergunta, é a questão da arte. Nossa, amiga, de verdade, para mim, arte é exatamente o que você defende. E acredito que precise ser assim desde criança para que haja um pensamento artístico verdadeiro no adulto.
A má notícia? Fui professora em escolas regulares durante 7 anos e POUQUÍSSIMAS vezes vi professores ensinando esse conceito a seus alunos. Os professores com formação em artes conseguiam alguma coisa, mas os dos primeiros anos (1o ao 5o), definitivamente só mandavam xerox para os pequenos pintarem, faziam desenhos na lousa para que fossem copiados. Acho que poderia ser um alerta para outros pais questionarem as escolas de seus filhos.
Por esse (e outros) motivos, o Cauê está na Waldorf. Lá, eles somente serão alfabetizados (formalmente) com 6 anos, não havendo nenhuma apresentação de alfabeto antes. As salas do jardim são todas semelhantes às casas dos pequenos, as atividades não pretendem de forma nenhuma doutrinar as crianças (inglês, alfabetos, etc), para que elas possam BRINCAR MUITO. A arte, nesta escola, é muito, muito valorizada. Lá, realmente, existe uma valorização deste conceito que vc apresentou: desde pequenos, usam aquarelas, giz de cera; mais velhos, esculpem, fazem desenhos com carvão, giz pastel, estudam ritmo, música, poesia, teatro… quer dizer, a arte como um todo e não apenas um viés cheio de doutrinas! E não existe história de mais bonito… de modo nenhum.
Ufa! (falei muito, né?)
Bom, é isso…
Beijos
Sô
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Acredito sim na subjetividade da arte e por isso ela não pode ser mensurada, avaliada, quantificada. Ainda mais na escola, as crianças tem ainda vivências muito íntimas e se sentem dimunuídas se uma coisa que fazem com tanto carinho e amor é classificada como “menos boa” do que outra. E concordo com o pensamento da Ana AMaral, eles precisam aprender a competir e saber perder, mas não quando o que está em questão são seus sentimentos infantis ainda em formação.
Mãe que não é chata, não é mãe.
Beijos
P.S.: A rede Mulher e Mãe e principalmente o blog ganhou muito com o acréscimo da tua sensibilidade e a praticidade da Tatiana. Tô amando essa nova fase, muito enriquecida com a presença de vocês. Vocês duas, mais a Calu que é tudo de bom sem adjetivos que a definam por inteiro são um trio muito especial e a cada novo post, me apaixono mais. Parabéns!
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Concordo com vc, Glauciana! E tenho uma história da minha infãncia para contar: eu me lmbro até hj de um dia no que hj seria pré escola (acho, pois eu devia ter uns 5 anos) que COLORI um desenho já pronto de uma casa com graminha, cercado, árvores, essas coisas. Eu pintei o telhado da casa de lilás (fortemente marcado pelo giz de cera nas linhas e mais fraquinho no meio, lembro até hj disso) e minha professora me disse que estava ERRADO, que telhado não era lilás! O resultado foi que a partir de então eu sempre detestei ed. artística!
Hj mato minha vontade pelo colorido nos desenhos com minha filha! Agora faço telhados verdes, roxos, malhados, com bolinhas! Árvores azuis com frutinhas cinzas, caracóis vermelhos de antenas amarelas e por aí vai!
E sou meio contra a essas coisas de competição na infância, sabe? Aliás, pensando melhor, DETESTO competição…
Beijos!
Nine
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Línguas… acho incrível que Sofia já tem aula de Inglês E Espanhol!!! Como pode? As aulas não tinham começado direito ainda, mas não tem livros dessas matérias. Agora, voltando das nossas férias, vou acompanhar isso mais de perto e procurar saber. Na idade em que ela está eu acho até legal, pq as crianças nessa idade (6, 7 anos) tem bem mais facilidade de aprender outras línguas, mas é como vc disse: ela sabe o português? Não… então preciso acompanhar isso pra não virar exagero, né?
Sobre artes… hoje msm comentei com @maecomfilhos sobre essa coisa da criatividade. Mta gente tem mania de podar a criatividade da criança: elefante não é azul! O céu não pode ser verde! Isso não é uma aranha, isso é um rabisco! Que mania feia!!! Será que isso é pq nós tbm fomos podados demais?
É o que vc disse: arte depende do gosto de cada um. Eu tbm ADORO Monet, mas tbm gosto da arte alucinógena do Dali… E, sinceramente? Pra mim não existe arte mais feia ou mais bonita qndo se trata de criança, pq o q cada um faz ali é o que dá conta, na simplicidade do que entende e é capaz. Tem coisa mais bonita?
Um beijo!!
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Concordo contigo Glau! É a mesma coisa quando as crianças começam a rabiscar as paredes de casa e a gente poda dizendo que está sujando. O Italo vive criando suas obras e pendurando na geladeira ou dando de presente para os amiguinhos. Tenho que confessar que eu não tenho muita sensibilidade para obras de arte, algumas demoro a interpretar, outras nunca entendi, mas sempre prezo o trabalho e a inspiração que a pessoa teve para criá-la, mesmo não entendendo o recado.
Quanto ao inglês, se a escola que for administrar o curso for idônea e se o curso foi realmente para a faixa etária do seu filho você pode colocá-lo sem problemas. Normalmente as aulas de línguas nesta faixa etária são feitas de forma lúdica, com brincadeiras e músicas e ele não vai achar a aula pesada. Vai ser mais uma forma dele brincar e aprender. E ao contrário do que a gente pensa, dos 3 aos 5 anos é a melhor fase para aprendermos línguas, pois isto ocorre de forma natural, como aprender a falar e andar, já que não temos o compromisso de aprender gramática e regras. Especialistas dizem que é a fase em que mais estamos abertos ao aprendizado. Se ele gosta e já se interessa pelo inglês é um caso a se estudar.
bjs
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Muito bem feito! Sua intervenção lúcida e pontual + correção feita pela escola foram muito importantes.
Essa coisa de inglês na escola promovida por outra entidade de ensino é muito complicada, a meu ver. Talvez não nessa fase, mas depois vem a comparação – x faz, eu também quero – e nem todas as familias podem prover. Acho que o estudo mais aprofundado de um idioma (porque a escola já terá ingles e/ou espanhol no currículo regular) devia ser dissociado do ambiente escolar e opção exclusiva de cada familia. Independentemente de quão confortavel possa parecer aos pais juntar tudo num mesmo lugar.
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Exagerada?? Nerd?? Magina! Vc agiu mto bem! Eu fui lendo o post e me assustei com essa história de escolher o melhor desenho, um verdadeiro absurdo. Ainda bem q vc se manifestou e q isso não passou de uma confusão. Concordo com ABSOLUTAMENTE TUDO q vc escreveu. Parabéns pelo post e pela iniciativa!
Bjos,
Camila
http://www.mamaetaocupada.blogspot.com
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