Bruta flor do querer

Tenho um amigo de infância, o João Felipe, que tem um irmão apenas dois anos mais velho que nós. O conheço desde que tenho uns 9 anos e sempre soube, de longe, o prodígio que era, já que frequentava sua casa. Embora sejamos quase da mesma idade, nunca fomos amigos. Eu era mesmo amiga de João Felipe. Arthur não se misturava conosco. Tinha sua própria turma de amigos. Na verdade, ele gostava mesmo era de jogar videogame enquanto brincávamos na rua.
Vi a comemoração quando Arthur ganhou o prêmio nacional das Olimpíadas de Matemática no ensino fundamental. Estive na festinha que seus pais fizeram quando ele passou no vestibular de Economia na USP, aos 17 anos, sem ter feito cursinho. A família de João Felipe e Arthur é a típica família tradicional classe média baixa do interior. Nem muito nem pouco dinheiro. Pai bancário, mãe professora. Ambos contratados do estado.
Hoje, eu e Arthur moramos na mesma cidade. Ele tem 32 anos e é funcionário de um dos maiores bancos do país. Há três anos saiu em uma reportagem da Você SA como um dos jovens talentos em investimentos na bolsa de valores. Chutando baixo, Arthur já deve ter chegado fácil ao seu primeiro milhão acumulado com seu dom em manusear o dinheiro. Não só seu, mas sobretudo o dos outros.
Mês passado me encontrei com João Felipe, meu brother. E naquele papo de “quanto tempo“, “como vai“, “o que tem feito“, “que saudade da sua família“, perguntei sobre Arthur. A resposta de meu amigo a mim foi: “Arthur? Bem, deve estar bem. Moramos na mesma cidade, mas não o vejo faz uns três meses. Ele está lá na casa dele tentando preencher as quatro vagas de garagem do apartamento de luxo que comprou“.
Não, não era um exagero. Uma metáfora. Uma forma irônica de dizer algo. De fato, Arthur, solteiro, vivendo sozinho, aos 32 anos, tem um apartamento que possui quatro vagas de garagem. E está firme no propósito de preencher todas as vagas: ele tem três carros de luxo. Três! Isso, eu disse três. E não são uns carrinhos qualquer de luxo, nacionais. João Felipe até brincou com a situação: “enquanto eu me viro pra pagar o IPVA de meu Fox, meu irmão precisa escolher todas as manhãs se vai trabalhar com a BMW, com a Mercedez ou com o Audi“.
E na sequência João Felipe me disse que a mãe e o pai estavam muito preocupados com Arthur, que não esteve em Assis – a cidade onde moram – nenhuma vez no ano passado. Que vive sozinho no apartamento com quatro vagas de garagem, não consegue engatar um namoro sério, que só se envolve com mulheres belíssimas, mas não passa do terceiro encontro com nenhuma. Muitíssimo responsável e envolvido com o trabalho, Arthur não tem alegria e vive em uma ansiedade em acumular coisas materiais.
Voltei pra casa e Arthur não me saiu da cabeça. Alguns dias depois de saber dessa história, percebi Eduardo em um comportamento que na hora me veio o menino dos três carros à memória. Dudu quis porque quis, com todo o desejo, ganhar de Papai Noel um videogame. Eu não sou totalmente contra, mas acho que existe a idade certa para as crianças começaram com jogos eletrônicos, por isso fiz um trato com Papai Noel que, dessa vez, seria apenas um minigame. Eduardo falou do videogame uns dois meses antes do Natal. Dormia e acordava pensando no videogame. Respirava videogame. Uma determinação e desejo que eu nunca tinha visto em meu menino.
O Natal chegou, Papai Noel esteve em casa e entregou o tão sonhado videogame nas mãos de Dudu. Eu achei que talvez ele pudesse ficar um pouco frustrado, porque na real aquilo não era uuuuuuum videogame. Mas, não, quanto isso OK, ele gostou. Brincou, pediu a ajuda do pai para entender o joguinho, levou para a escola no curso de férias, dormiu com o presente na cama na primeira semana.
Agora em janeiro, Dudu já tem novo desejo, deixando o minigame totalmente de lado: agora quer um laptop. Um laptop, gente. Assim, uma criança que ainda não tem nem cinco anos completos e que mal consegue pronunciar a palavra em inglês, quer um laptop. Quando o perguntei o porquê de querer isso, ele me respondeu que é porque tem “joguinhos muito legais“, de acordo com seu melhor amigo da escola que ganhou um de Papai Noel.
Estamos “fabricando” mini Arthurs em série, minha gente. Para Eduardo, não basta ter um minigame ou um videogame. Se o amigo tem um laptop para jogar, é esse o objeto de seu desejo, mesmo sem saber exatamente para quê serve ou quais são, de fato, esses “jogos tão legais“. Para Arthur, não basta ter a BMW nem a Mercedez. É preciso ter mais. Qual será o limite de Eduardo? Qual será o limite de Arthur? Qual será o meu limite? De quantos sapatos eu preciso para que meu pé não fique descalço? De qual celular eu preciso para poder me comunicar com as pessoas?
A ansiedade em ter nos sinaliza que vivemos na constante busca por algo que talvez nunca tenhamos. O vazio que tentamos preencher com coisas materiais pode ser que nunca seja completado. Ao contrário, à medida que conseguirmos atingir nossos objetos de desejo, é provável que fiquemos ainda mais ansiosos e frustrados em perceber que todo o esforço, energia, tempo e dinheiro dispendidos para alcançar aquele desejo não preencheu a lacuna que nos falta.
A quase indefinível sensação de necessidade e carência foi lembrada pela mitologia grega: a mãe de Eros, que é o desejo, é a Penúria, que significa falta. Se admitimos que essa falta jamais será preenchida com as ilusões do universo material, ou mesmo emocional, vamos abrandar a fome com que nos atiramos às pessoas e às coisas. Desejar mais do que o momento nos oferece é garantia de infelicidade.
E eu me incluo nessa. Ninguém está à salvo. Talvez grandes e poucos espíritos tenham vindo à Terra nos ensinar que desejar mais do que se precisa é garantia de frustração. Uns em maior e outros em menor grau, todos unimos desejo a prazer. Aliás, não há nada de errado em sentir esses dois substantivos, afinal tudo o que queremos na vida é buscar a felicidade. O problema é o limite. Palavrinha mágica que determina o freio de nossos exageros. Limite é quase como a diferença entre o remédio e o veneno: a dose.
Querer ter coisas e usufruir do dinheiro no sentido de construir uma vida mais plena e mais tranqüila é uma postura racional, aceitável e até necessária, considerando que esse desejo é um dos propulsores do progresso. Entretanto, confundir o sentimento de ter com a sensação de felicidade é um passo para o vazio. Afinal, vale sempre o lembrete de que a felicidade está dentro de nós e não fora, no outro, no futuro ou em outras circunstâncias.
*Imagem: We Heart It



















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