Coisa de Mãe
13 ago 2015

O dia em que eu deixei de ser uma princesa e virei uma rãzinha

Post por Glauciana às 09:41 em Devaneios de Mãe

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Ontem eu estava olhando as fotos de um ex-casal. Aquelas fotos que ainda estão publicadas, naquele processo lento e difícil que é ir apagando as marcas de uma história que ficou na página passada. Se é que as marcas precisam ser apagadas, não é mesmo? Sou da opinião que história é história e vai existir sempre o relato delas. O que podemos fazer é colocar tudo isso dentro da gaveta certa no coração e só ativar as lembranças, de preferência esforçando-se para se apegar mais às felizes do que às tristes.

Aí, por um segundo em pensei: Poxa, mas olha só, que casal bonito, tão unido, criança fofa e saudável, amigos, casa linda, declarações mútuas de amor. O que será que deu errado? E no mesmo instante me lembrei do meu casamento, que também era assim e que, do dia para a noite, acabou. Dormi esposa, acordei ex-mulher.

Bem, duas coisas me ocorrem. A primeira é o grande equívoco que nossa geração tem de lidar: a eterna felicidade que o Facebook mostra. É fácil ser feliz no Facebook, com foto de rostinho colado, com brinde de espumante no jantar, com criança sorridente. Ocorre que na sequência da foto, pode ser que ela afaste o marido, alegando que ele está grudento demais, pode ser que eles continuem na discussão logo após a foto do brinde, pode ser que a criança fofa despenque numa birra homérica e transforme-se num gremilin catarrento. A felicidade captada pela lente e postada no Facebook é instantânea. Não, não estou dizendo que tudo ali seja mentira, de jeito nenhum, mas não podemos tirar conclusões a partir de apenas um frame da cena toda.

O outro ponto que acabei de ponderar está exatamente nisso tudo que falei. Quem vê a foto da família linda almoçando junta, casal sorrindo, filhos à mesa, pode imaginar a cena feliz daquele clique, sem imaginar o que acontece na sequência. Claro que existem momentos de calmaria e de pura harmonia. É inegável que exista amor em muitas relações, entretanto também faz parte de todas as relações o caos, sobretudo nas relações familiares.

Há almoços em que o filho não come, que dá chilique, que vomita na mesa posta. Tem aqueles dias que o casal sequer consegue conversar, porque ele chegou super nervoso do trabalho e ela está na TPM. Há momentos que não vai haver conversa nenhuma, por que nenhum dos dois anda suportando o parceiro.

Sim, bem-vindo à vida real. Família também tem isso. E eu demorei a entender que o funcionamento era esse. A grande cagada é termos o modelo do conto de fadas no imaginário. Tudo reluz, todos os vestidos são rodados e brilhantes, os príncipes lindos, loiros e educados, as princesas impecáveis e as crianças amáveis e tranquilas. Esqueceram de contar pra gente que, infelizmente, os contos de fada não mostram o dia a dia da família. A história acaba no momento em que príncipe e princesa encantam-se um pelo outro e foram felizes para sempre. O dia seguinte, o da ressaca, nunca foi registrado. Entendo, o para sempre é tempo demais e seria difícil retratar todos as delícias e lutas dele.

Aí, quando a princesa aqui caiu da torre teve a sensação de que o castelo tinha vindo abaixo também. Sim, e veio! Aquele mundo do conto de fadas, que havia apenas na minha mente, de fato acabou. Não existe romantização. A vida é bruta. Casamento não é fácil, criar filho muito menos. Relações, em geral, mas ainda mais especificamente homem-mulher, demandam muito esforço, dedicação, compreensão e jogo de cintura. E as intempéries naturais do dia a dia vão acontecer. Tolos daqueles, como eu e meu ex-marido, achar que o encanto tenha se perdido. Não, baby, nenhum encanto se perdeu, apenas existia uma dinâmica normal de família.

Ontem mesmo eu fiz uma corrida na rua, enquanto meus filhos Eduardo e Luca estavam no campo jogando futebol. Terminei de correr, fui buscá-los no futebol e meu amigo ligou, dizendo que estava em um boteco, para eu passar lá. Fui com os meninos e, chegando lá, apareceu um colega de trabalho. Nós três engatamos uma conversa boa, mas que a todo momento era interrompida por criança gritando, correndo, pedindo suco, subindo na moto estacionada na frente da nossa mesa, engasgando com batata frita, berro de irmão beliscando o outro. Eu até, em um instante, pedi desculpas pro colega de trabalho, que me contava algo super interessante e eu tive que parar de escutar para controlar um pequeno viking. Ele sorriu e disse não era nada, que bem entendia aquilo, já que também tem um filho.

E isso tem ficado cada vez mais claro pra mim: as dinâmicas dos relacionamentos com crianças, quer dizer, as dinâmicas dos relacionamentos, no geral, são – como o próprio nome diz – dinâmicas. Desperdiçar esses momentos porque criança dá trabalho é uma besteira. Meu ex-marido mesmo, num determinado momento, quando ainda estávamos casados e tínhamos os dois bem pequenos, nem queria mais sair pra almoçar fora, alegando que era muito cansativo. Sim, de fato eu prefiro estar num boteco apenas com os amigos, tomando uma cerveja, conseguindo concluir um assunto sem ser interrompida, falando coisas do mundo dos adultos. Porém, deixar de passar lá no boteco só porque eu estou com as crianças? Não, não! Prefiro o perrengue delicioso de estarmos juntos.

A verdade é que quando eu caí da torre e deixei de ser princesa, no momento em que meu casamento acabou, todo o mundo ficou mais prático e menos romantizado para mim. Talvez eu tenha ficado menos besta! E prefiro assim. Entendi que as relações só são bonitas porque elas são circulares e que não existe linearidade ou script pré-programado. Vai ter criança chorando, mas também vai ter criança rindo. Vai ter noite de cerveja apenas com amigo e conversa bacana e vai ter noite de cerveja com amigo, com criança e com interrupções. E pronto, sem crise! Olha, vou contar que a vida ficou mais legal, viu?!!?

*Imagem: Daqui

05 ago 2015

Falando de separação com nossos filhos

Post por Glauciana às 09:43 em Mãe e Filhos

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Todos os acontecimentos do mundo refletem apenas a nossa visão sobre algo. Isso mesmo! Nada é o que é. Tudo não passa da forma como olhamos o mundo, os nossos valores, repertório e crenças.

E todo o pensamento ganha forma concreta por meio da linguagem. É falando – ou escrevendo, sobretudo no meu caso :) – que as conexões se formam e podemos perceber o que pensamos. Por isso a terapia e a análise são tão importantes. Aquele papo com seu melhor amigo também, claro, porque no momento de um desabafo estamos colocando todo o imbróglio de sentimentos em uma linha reta ou, pelo menos, organizando a bagunça de sentimentos que sentimos vez ou outra.

E algo que aprendi nesta vida: ninguém consegue ser nada de bom sob pressão. Cada vez mais me convenço – e tento convencer os outros – que a beleza da vida se dá na liberdade em detrimento à opressão. Percebo isso claramente em meus filhos: no momento em que estão mais relaxados, quando se sentem seguros, quando ganham acolhimento… é aí que eles mais conseguem expressar o que sentem.

E como sentem, viu?!?! Crianças são bolos fofos de sentimentos, já que até os 7 anos eles são puramente inconsciente e, portanto, apenas sensações. Nada de racionalidade.

Nessa semana Eduardo e Luca assistiam a um filme na sala, enquanto eu estava lendo no meu quarto. Em um dado momento do filme, escuto Luca falar para o irmão: Ô, Du, não é mesmo que todos os pais do mundo moram na mesma casa dos filhos?

Escutei essa frase e já fiquei angustiada. Aquele tipo de coisa que quando a gente escuta sente o aço da navaia, como diz a canção. Parte o coração! Escutei e fiquei quieta. Fiz uma oração em silêncio, pedindo a Deus que acolhesse o coração dos meus meninos.

Embora eu creia que uma prece dê conta de amenizar muitas aflições, eu ainda acho que é por meio da linguagem que tudo se constrói. E também se desconstroi, claro! É preciso falar, explicar, esclarecer, pontuar, debater. E isso com todos os seres, mas especialmente com as crianças, que estão tendo formadas suas crenças de mundo.

Então, no momento certo, depois de ter acabado o filme, eu entrei em ação. Eles vieram imediatamente para a minha cama e Luca estava visivelmente emocionado. Não sei o que aconteceu no filme, mas ele já chegou dizendo: mamãe, o filme foi muito bonito, eu até dei uma choradinha. Isso é inédito, meus amigos. Se fosse Dudu, ok, manteiga derretida igual à mamãe. Mas, Luca? Lucão do caminhão chorando em filme? Ixi, deve ter sido punk para ele se emocionar.

Aí, eu o abracei, coloquei a cabecinha dele embaixo de minhas asas, disse que o amava e perguntei porque ele tinha chorado. Ele me respondeu que porque o menino do filme estava sem o papai dele. Aí, foi a oportunidade que eu precisava.

Expliquei a ele que existem muitos formatos de famílias. Que há papais que moram com as mamães e os filhos. Há papais que vivem sozinho com as crianças. Há mamães que moram com os filhos, como é o nosso caso. Há casais que escolhem ou não conseguem ter filhos. Tem aqueles papais e mamães que se casam de novo e viram grandes famílias, juntando as crianças de outros pais e outras mães. Que tem crianças que têm dois pais ou duas mães. Fui falando, falando, falando… expliquei as diversas formas de família.

Ele, quietinho, escutando, abraçado a mim, questionou:

– Mas, o papai foi embora por que ele não gostava de morar com a gente?

Ahhhh, minha gente. É muito difícil continuar a conversa nessas horas. Que golpe baixo, Luca. Naquele noite o chuchu da mamãe estava realmente disposto a partir meu coração.

Respondi:

– Quando nós nos mudamos da Bahia para Assis deixamos nossos gatinhos, o Tino e o Luís, morando com outra pessoa, não foi, filho?

– Sim, com a professora do Dudu – ele disse.

– Pois bem, e você deixou de gostar deles? – emendei outra pergunta.

– Não, mamãe, claro que não! Eu gosto deles e tenho saudade. Uma pena que eles não podem morar com a gente.

Aí, com este exemplo, eu disse que a mesma coisa acontece com ele e o papai Fabio. Que papai continua amando, continua gostando, sente falta, mas que não pode mais viver na mesma casa.

Neste momento, quando Luca entendeu, seus olhinhos brilharam! Ele olhou para mim, espantado, sorriu e saiu andando. Chegando na sala, disse para o irmão, seu confidente:

Dudu, tem alguns papais que moram em outras casas. Não é só o nosso! Eu acho que o papai gosta muito da gente, mesmo ele morando longe. Ainda bem que a gente passa as férias com ele. E ele também compra videogame para nós.

Pronto, eu dormi em paz. Porque, meus amigos, o perrengue da vida está por toda a parte. Pode ser um pai que não está presente todos os dias, uma mãe que se foi, uma esposa que te largou, um irmão que morreu. O importante mesmo é como olhamos para estes fatos. O que faremos com o que fizeram para nós? Essa é a reflexão sempre!

*Imagem: Daqui

21 jul 2015

Uma família para unir

Post por Glauciana às 22:23 em Devaneios de Mãe

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Um dos instintos mais naturais que temos, quando nos tornamos pais, é o ímpeto de mostrar o mundo a nosso filho. Esse desejo é ainda mais forte quando se trata do nosso mundo. É natural, e até meio que uma questão biológica, querer mostrar a nosso herdeiro de onde viemos, quem somos, quais são nossas raízes e as pessoas que fazem e fizeram parte de nossas vidas. Me lembro até hoje do dia que levei os guris até minha cidade natal, no interior do Paraná, e mostrei a eles a casa onde morei na infância, a escola onde estudei e o Cristo de Cornélio Procópio, ostentando, orgulhosa, o título de maior estátua de bronze da América Latina. É bem provável que eles não tenham entendido nada – e muito menos se lembrem disso, já que eram bebês. Entretanto, eu me lembro de cada passo que demos lá. Para mim isso foi e é importante.

Com Guylain e Jeannine isso não aconteceu. Eles acabaram de ter um bebê e não puderam – e nem tão cedo poderão, provavelmente – mostrar de perto o que compõe seus mundos ao pequeno Craig Andre, que nasceu há três semanas. Guylain e Jeannine são refugiados da República Democrática do Congo (ex-Zaire), um país do meio do continente africano, que tem sofrido uma intensa guerra civil nos últimos anos. Dados alarmantes mostram que cerca de 4 milhões de pessoas já tenham morrido como consequência desses conflitos. Se eles não tivessem fugido de lá provavelmente eu não estaria contando essa história hoje, pois eles também teriam sido mortos.

Os habitantes do país sofrem com vários problemas socioeconômicos: a taxa de mortalidade infantil é uma das mais altas do planeta: 115 óbitos a cada mil nascidos vivos; o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de apenas 0,239, sendo a segunda pior média mundial; o analfabetismo atinge mais de 32% dos habitantes; cerca de 76% da população é subnutrida; a maioria dos habitantes vivem com menos de 1 dólar por dia, ou seja, abaixo da linha de pobreza.

Com Jeannine e Guylain, entretanto, essa realidade era diferente. Eles faziam parte de famílias social e financeiramente mais estáveis. Ele, Guylain Mukendi, aos 31 anos já tinha uma vida tranquila economicamente: lecionava Direito Fiscal e Finanças Públicas na Universidade de Kinshasa (UNIKIN), instituição com o nome da capital de seu país. Ela, Jeannine Ntumba, com 29, formada em Análise de Sistemas, trabalhava como Assistente Administrativa em uma organização que luta pelos Direitos Humanos, na África.

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Ambos jovens, cheios de vida, lutando pela justiça em seu país. Ele por meio da educação. Ela por meio dos Direitos Humanos. Acontece que este desejo de ver um país melhor não condiz em nada com o nome da nação: de República Democrática o Congo não tem nada. O que se vive lá é uma ditadura tremenda. Desde que fora declarado independente da Bélgica, o país colonizador, há 32 anos, uma mesma família está no poder. O atual presidente tem cometido, em seus 15 anos no poder, diversos crimes e ainda assim permanece no posto.

Essa impunidade – e o desejo de lutar por justiça – foi o que fizeram com que Guylain e Jeannine tivessem que fugir do Congo para o Brasil. Ele saiu de lá, às pressas, ameaçado de morte, por ter investigado a morte de um tio padre, que foi deixado doente e sem tratamento, até morrer, e também por ser acusado de incitar os jovens estudantes a fazerem manifestações. Já ela, também ousada, foi à televisão e declarou abertamente o nome do assassino do Diretor da organização onde ela trabalhava.

Com esses dois acontecimentos paralelos, na mesma época, os caminhos deles estariam cruzados para sempre, ainda que não se conhecessem no mesmo país de origem. Viram-se rapidamente na Embaixada, quando organizavam a fuga do país, porém não se falaram. O medo era companheiro constante deles e qualquer pessoa poderia ser uma ameaça, já que por toda a parte há informantes infiltrados, para denunciar o paradeiro dos procurados pela polícia, a mando do governo. O país vive uma guerra civil, com as mortes sendo veladas: há funcionários da presidência que são pagos para colocar veneno na comida e na bebida de quem está na lista negra.

Antes da partida, a vida deles era de agonia e medo, muito medo. Ambos receberam ameaças por telefone, foram seguidos na rua, suas famílias também juradas de morte. E a única alternativa que restou, para que pudessem viver livres, seria sair do Congo. O Brasil fora o destino escolhido, já que recebe bem refugiados de outros países. A família de Guylain conseguiu levantar 10 mil dólares para pagar a sua saída de lá e 4 mil para que pudesse trazer para o Brasil e recomeçar a vida. Jeannine também se organizou financeiramente e pode embarcar rumo à liberdade.

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A chegada dos dois, porém, foi turbulenta. Ainda antes de sair do aeroporto Guylain foi chantageado pela pessoa que lhe ajudou e teve de dar os 4 mil dólares restantes, ou não embarcaria. Chegou ao Brasil com 50 dólares no bolso. Passou o primeiro ano morando na casa de um tio, no Butantã, e trabalhando na área de hortifruti do Pão de Áçúcar, um grande supermercado da capital. Ali, sofreu toda sorte de preconceitos e dificuldades: pouco dinheiro, não entendimento do idioma (sua língua mãe é o francês), saudade da família, nostalgia pelo afastamento de sua terra de origem, humilhação moral por ter perdido o destaque social que tinha em seu país e medo, muito medo. Ainda depois de ter cruzado o oceano, Guylain sentia medo, pois mesmo aqui há gente do governo que informa o endereço dos refugiados do Congo.

A vinda de Jeannine foi ainda mais dramática, já que ela tinha menos dinheiro e por uma dessas ironias do destino teve sua mala, com todo o dinheiro, pertences pessoais e documentos, roubada no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando chegou. Sem falar nada de português, sem nenhum dinheiro no bolso e muito menos saber como se locomover, prostrou-se chorando, até que, segundo ela, apareceu um anjo falando francês e a levou para a sede da Caritas do Brasil, instituição internacional que acolhe mulheres em situação de desamparo. Ali ela ficou por 6 meses, dividindo o quarto com outras três mulheres. Não havia outra escolha. Durante esse tempo trabalhou em um restaurante, como ajudante de cozinha.

O destino, entretanto, juntou Jeannine e Guylain novamente. Dessa vez, longe de suas terras, esforçando-se para aprenderem a língua do país de sua nova morada. No curso de Português, oferecido pela Uniesp, na capital paulista, começaram uma amizade. Ela, ainda um pouco resistente, foi mais reticente, mas graças aos esforços sedutores e cuidadosos de Guylain logo começaram a namorar. Dali para o casamento foi um pulo. Não puderam, é claro, fazer a cerimônia oficial como teria sido em seu país, mas ele fez questão de pagar o dote à família dela lá, cumprindo com um dos rituais.

Eu pude notar, nas poucas horas em que estive com eles, naquela tarde de domingo, que ambos possuem valores muito sólidos e caros. Valorizam a família, as relações humanas, o respeito ao próximo, o cuidado com as pessoas, a valorização dos direitos individuais de cada um e a manutenção dos vínculos. Esses valores é que motivaram o casal a ter um filho. O que pode parecer uma grande loucura para muitos, inclusive soou para mim, para eles foi a salvação. Quando fiquei sabendo da história deles, logo pensei: “puxa, que difícil deve ser engravidar nessas condições e ter um bebê longe da família, sem falar direito a língua”. Não, não, ledo engano! A medida que fui escutando melhor a história, tive o prazer de me emocionar com a força daquelas pessoas e de perceber que o pequeno Craig Andre veio trazer o sentido daquilo que Guylain e Jeannine mais prezam: a família.

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“Nós escolhemos engravidar. Assim que casamos tínhamos certo que o que queríamos era uma família. Já perdemos tudo o que tínhamos e julgávamos importante: nossa terra natal, nossos amigos, nossos parentes, nossos trabalhos, o carro, a casa. Enfim, não havia mais nada, nem mesmo a nossa dignidade. Hoje nós três somos uma família. Temos um ao outro. Agora, nós somos uma unidade. Craig Andre nos trouxe isso. Mesmo que a gente perca tudo de novo, a nossa família não vai deixar de existir. Agora nós temos alguém com quem a gente pode falar o que temos no coração”, confessou-me um Guylain emocionado, tentando conter as lágrimas, cruzando olhares ternos comigo, enquanto falava, e com a esposa, que neste momento amamentava o bebê.

É claro que nem tudo são flores. O dia a dia, por vezes, se mostra difícil. Jeannine ainda sente as dores da cesárea a que foi submetida e também tem enfrentado dificuldades para amamentar. Ela sente-se muito sozinha e gostaria de ter a presença da família, que ainda não conhece pessoalmente o herdeiro – e provavelmente vai demorar a conhecer, até que consigam vir ao Brasil. Isso tirou lágrimas da recém-mãe, enquanto me contava dessa saudade. Por sorte, eles moram em um quintal na zona leste de São Paulo, que tem várias casinhas construídas. Ela tem o apoio das vizinhas e também do marido, que divide seu tempo com os cuidados com a casa e o bebê e o novo trabalho.

E por falar em trabalho, além do filho, esse é o outro motivo do brilho nos olhos de Guylain. O Projeto Abraço Cultural – Curso com Refugiados (www.abracocultural.com.br) está sendo seu trabalho neste julho. O mês tão gelado na capital paulista veio aquecer o coração do congolês, que – tal qual sua profissão na África – também é agora professor no Brasil. Guylain faz parte, junto com outros refugiados do Haiti, da Nigéria e da Síria, do corpo docente de língua estrangeira da iniciativa. Ele ministra aulas de Francês, sua língua nativa.

O projeto foi desenhado pela plataforma social Atados e tem parceria com a Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado Brasil), a BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul), da SP Escola de Teatro (Centro de Formação das Artes do Palco) e da Escola da Cidade, que cederam as salas de aula para que o curso fosse possível.

O principal objetivo é promover a troca de experiências, a geração de renda, e a valorização pessoal e cultural de refugiados residentes no Brasil e, ao mesmo tempo, possibilitar aos alunos do curso o aprendizado de idiomas, a quebra de barreiras e a vivência de aspectos culturais e festivos de outros países. Para Gylain o mais bacana disso tudo é ele poder desempenhar um trabalho respeitoso e digno.

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Saí da casa de Guylain e Jeannine no fim daquela tarde invernal de domingo com o coração aquecido, embora a temperatura marcasse menos de 10 graus. Esperança foi a palavra que ficou por dias na minha cabeça. Essa é uma história de esperança! Por certo que sim. Mesmo com todo o sofrimento que essas pessoas passaram, é com amor que eles narram os acontecimentos e é com esperança que sonham com o futuro.

Mesmo em toda a dificuldade com o dinheiro, acreditam que reconstruirão a parte financeira e poderão dar uma vida digna a Craig Andre. Aliás, o que eles mais prezam pela vida no Brasil é a liberdade. Aqui o filho está tranquilo e não vai sofrer o que os pais dele sofreram, falou-me Jeannnine. Nosso país, embora eu tenha a impressão de que seja bastante xenofóbico com imigrantes de algumas nações, consideradas “menos nobres”, é um país das liberdades. Se não totalmente, me parece bastante livre quando comparado ao Congo. Isso o próprio Guylain me confirmou: “aqui no Brasil tem muita gente que me acolhe e me respeita”.

Jeannine e Guylain são pessoas inspiradoras, não só pela história de vida e luta, mas por como praticam a resiliência, uma virtude que eu muito aprecio. Em toda a nossa conversa o que mais senti viva foi a fé em dias melhores. Sonhadores, acreditam que um dia tudo vai ficar bem e que eles poderão voltar para o Congo e mostrar seu país ao filho. Enquanto isso, vão criando-o na liberdade do Brasil, falando francês em casa, para manter sua língua, e também mantendo algumas tradições culturais, como a culinária africana. Jeannine ao final de nosso encontro, diferente do começo, em que estava mais calada e ressabiada, me convidou de forma bastante espontânea para retornar à casa dela, semanas depois, quando já estivesse mais recuperada do parto, para cozinhar um prato típico do Congo para mim. Eu aceitei, é claro, não só pela oportunidade de conhecer a gastronomia africana, mas por poder estar novamente ao lado de pessoas inspiradoras.

 

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Todas as imagens são da Ilana Goldsmid, fotógrafa carioca, há 10 anos na capital paulista. Usa sua sensibilidade por trás da câmera para registrar famílias, da gravidez às festas infantis. Tem, também, projetos autorais sobre a imigração recente de São Paulo e frequentadores dos Centros de Acolhida Seu site é www.ilanagoldsmid.com.br

15 jul 2015

Atenção aos sintomas de dengue nas crianças

Post por Glauciana às 19:31 em Casamento

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Dia desses Luca acordou vomitando, depois de andar uns dias já amoadinho, sem vontade de ir pra escola (o que é de assustar, por que ele ama ir pro colégio). Na sequência sentiu dor na barriga e teve febre. Pronto, já tremi de medo. É a tal da dengue. E aí fui pesquisar os sintomas e o que acontece nas crianças. Acho bacana compartilhar aqui, para que vocês tenham claro, já que a dengue é uma doença séria e aqui no interior de São Paulo, onde moramos, estamos em epidemia.

Sintomas da dengue em crianças:

• Febre

• Fraqueza

• Sonolência

• Perda de apetite e recusa em comer

• Vômito

• Diarreia

• Sintomas que cessam e depois retornam, alguns dias depois

Na dengue hemorrágica os sintomas podem ser piores, além dos anteriores:

• Hemorragias nasais, gengivais, urinárias e gastrointestinais

• Baixa da pressão arterial

Além de ficar muito atenta a esses sintomas e levar urgente a uma unidade de pronto-atendimento, é importantíssimo que os pais não mediquem as crianças, isso por que vários medicamentos têm o acido acetilsalicílico, que complica muito o quadro de dengue.

Bem, mas antes que isso aconteça. E eu vi acontecer, por que minha mãe pegou dengue e ficou mais de um mês beeeem doente. Foi um sufoco. Desde então, tenho feito ações preventivas. Afinal, manter #nossacidadesemdengue é dever de todos nós, cidadãos. Só JUNTOS podemos combater a dengue. Então, façamos a nossa parte com nossos quintais, não deixando a água parada e usando inseticida para espantar os insetos.

E vamos compartilhar a informação, porque a questão é séria. Divulgue, fale a respeito, converse com seus vizinhos. Entre nesta luta com a gente!

No site do SBP tem mais informações sobre como previnir e proteger sua casa e sua família dessa doença, vale a pena conferir, porque juntos somos mais forte na luta contra a dengue.

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17 jun 2015

Sobre cordas, amores e laços

Post por Glauciana às 17:51 em Devaneios de Mãe

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Eduardo chegou em casa aflito por conta de um amigo. Afoito. Ansioso. Olhos arregalados. Mãozinhas frias. Sem fome. Todos os clássicos sintomas da ansiedade, da agonia. Conheço-os bem, infelizmente. Disse-me que não sabia se o amigo gostava dele. Eu, tentando entender a situação, para poder ajudá-lo, comecei um diálogo:

– “Por que você acha que ele não gosta de você, meu bem?” – perguntei.

– “Ele não quis jogar bola comigo hoje no pátio da escola” – respondeu já chorando um choro sentido, profundo. Aquele tipo de situação que você está segurando o quanto pode, até chegar alguém e dar um toquinho de leve na água da borda do balde, para que ela derrame.

– “Mas, ele já jogou outras vezes” – continuei na investigação.

– “Não, nunca! E também não quis jogar quando eu o convideiiiiii. Buáááááááááá” – encostou a cabacinha entre as mãos, debruçando-se na mesa da cozinha.

– “Mas, filho, vocês são amigos, certo? Já brincaram outras vezes? Sente que ele gosta de você?” – fui afundando aos poucos.

– “Sim, mamãe. Eu acho que ele é meu amigo. A gente toma lanche juntos, ele me dá o biscoito dele e eu dou morango, que ele adora. Já brincamos de hominho e de esconde-esconde, mas hoje ele não quis jogar bola comigo” – finalizou minha criança.

Pois bem, meu filho. Você tem a quem puxar. Perdoe a mamãe, por favor, por ter te passado essa bosta de crença, esse modelo de relacionamento tão carente, tão deturpado do que eu acredito como algo saudável. Racionalmente, mamãe sabe que isso tudo é um engano, mas na hora que o bicho pega meu comportamento é o mesmo que o seu, meu bem, mesmo tendo 25 anos a mais que você, minha criança. Mas, eu te aviso, filho, mamãe tá na luta. E sei que a coisa vai ficar cada vez melhor aqui dentro. Por que, na verdade, chuchu, ninguém aqui neste planeta sabe se relacionar bacana, não, viu!??! Tem uns que enganam bem, que até conseguem segurar a onda melhor do que outros. Mas, sabeeeeeer, sabeeeeer, ninguém sabe. Estamos todos no aprendizado.

Quem de nós já não achou que o outro não gosta de nós simplesmente porque não faz o que desejamos ou porque não está disponível no momento em que queremos jogar futebol?

Pois é! Eu vejo essa situação de uma forma bem imagética. Consigo visualizar uma corda bem grossa, daquelas de amarrar lona de caminhão na carroceria. Quando um relacionamento é iniciado automaticamente uma corda se cria. E falo de relacionamentos de forma mais ampla: amigos, amores, família, colegas de trabalho, parceiros de projetos. Todo relacionamento me liga ao outro por uma corda, cada um de nós em uma ponta. Por vezes nós conseguimos fazer laços lindos, que nos unem e enfeitam a nossa corda. Em outros momentos os laços acabam virando nós, que apertam. E sabe porque os laços viram nós? Por que uma das partes puxa demais a corda, como quando a gente puxa o laço do cadarço do tênis. Além do laço se desfazer, fica apenas o nozinho.

Eu tenho uma tendência fooooorte em puxar a corda. É da minha natureza. Sou das intensidades, da firmeza, das atitudes, do controle. Nasci assim, mas como não tenho a síndrome de Gabriela, graças a Deus, vou seguindo no caminho da mudança, para que não seja sempre assim, para que eu morra diferente. Na verdade, eu começo apenas segurando a corda, como o outro também está segurando. Há momentos que naturalmente alguém solta a corda. Faz parte, não significa que ele não está mais ligado a nós. Ele apenas soltou a corda, mas ela continua ali, ligando as duas pessoas. Neste momento, eu seguro firme, tensiono, puxo, me esforço muito, gasto uma energia danada para manter a corda esticadinha. Entretanto, quanto mais eu puxo a corda, mais os laços vão se transformando em nós.

Ontem eu consegui soltar a corda. Ufa! Soltei. Soltei, gente! Assim, jogando-a no chão. Em um comando eu soltei a corda. Olha, vou contar que dói soltar a porra da corda, viu!?! Que agonia. Será que a corda vai se desfazer e sumir? Será que não nos ligará mais? Será que o outro está segurando-a? Será que ele também soltou? Se sim, será que a pegará de volta? Não sei! A gente nunca sabe. Impossível saber. Não tem controle nenhum. Relaxe, nada está sob controle, por mais que você insista nessa ideia.

Entretanto, forçar a barra na corda nunca surte efeito, por que pressão e tensão não fazem nada de bonito brotar. NA-DA. Os laços são feitos para enfeitar. E a gente só quer enfeitar aquilo que achamos bonito, que amamos, que queremos cuidar. Ao que temos apreço. Nó endurece, aprisiona, amarra, embrutece.

E ao soltar a corda eu entendi que não há como prever o que o outro está fazendo com a ponta dele da corda. Puxando eu sinto que não está, por que a pressão, essa sim é sempre sentida. Não dá pra saber nada, a menos que ele fale. É como o amigo de Dudu. Será realmente que ele não gosta de Eduardo só porque não quis jogar bola naquela tarde? Será? Pode ser, mas também pode não ser!

Podem haver inúmeras razões para a criança não querer jogar bola. Ou melhor, não IR jogar bola. Por que, às vezes, teve vontade, mas não teve condições para isso acontecer. De repente ele estava cansado, triste, sentindo-se mal, com calor, com vontade de fazer outra brincadeira, não querendo ficar suado, por que mamãe deu uma bronca quando ele jogou bola da última vez, ficou suado, e entrou de volta à sala de aula. São tantas variáveis, mas tantas.

Resumir este fato a um “ele não gosta de mim” é reduzir demais a situação. E sofrer, claro! E então o lanche juntos? E o morango compartilhado? E o biscoito dividido? Tem prova de amor maior do que ofertar o seu alimento para o outro? Tem coisa mais poética numa relação do que dar um morango ao outro na hora do lanche? Tudo isso, de repente, é minimizado pelo simples fato de que naquela hora ele não jogou a porra da bola? Não, não! Há muito mais envolvido nisso.

E então, eu expliquei tudo isso a Eduardo, justamente numa noite, poucas horas depois de eu ter soltado a minha corda. Choramos juntos ali na mesa da cozinha, demos as mãos, nos abraçamos. Nós dois estávamos abalados, já tínhamos tido um chilique na hora do almoço. Trocamos as nossas dores. E meu filho de 7 anos fez com que eu trouxesse para a consciência tudo isso.

No final, eu disse a ele:

– “Quando você tiver vontade, vai lá e faz um lacinho na corda com o seu amigo. Ofereça novamente morango. Ou então, colocamos kiwi na sua lancheira e você leva pra ele. Pode ser que ele queira”.

E ele me respondeu:

– “Tá bem, mamãe, vamos fazer isso amanhã” – apontando pro kiwi que estava a nossa frente, na fruteira em cima da mesa. “Ah, e você não vai pegar a sua corda do chão?” – emendou numa pergunta pra mim.

Eu refleti, enxuguei uma lágrima, sorri com saudade e disse:

– “Sim, amor, eu vou pegar a corda. Eu sei que ela está ali. Eu a vejo e sinto ali, no mesmo lugar. Eu vou pegar a corda quando tiver certeza que do outro lado ele poderá pegar também pra gente fazer mais laços. Pode ser também que ele não a pegue de volta. Não há garantias. A gente nunca tem! Enquanto isso, deixo-a solta, liberando a mim e também a ele da pressão que eu comecei a fazer na nossa corda”.

– “Enquanto isso, mamãe, você pode brincar de pular corda” – terminou meu menino e foi pra sala ver um filme com o irmão.

É isso, Duduzinho, meu pequeno pensador. Enquanto isso eu vou pulando corda, vou brincando, vou me divertindo, vou sorrindo, vou seguindo a vida, com toda a alegria e coragem que me acompanham sempre :)

 

*Imagem: Daqui

16 jun 2015

O amor é uma decisão

Post por Glauciana às 16:19 em Devaneios de Mãe

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Eu tenho passado por uns dias difíceis. Me sinto cansada, exausta, sem vontade de fazer nada, com vontade de fugir com o primeiro circo que passe pela cidade. Pena – ou sorte – é que por aqui passam poucos circos. Na minha infância eles eram mais frequentes e eu já tinha vontade de fugir com eles e viver cada dia em uma nova cidade, respirando novos novos ares, conhecendo pessoas novas. Algo meio “um amor em cada porto”, como a canção “Maresia”, do Antonio Cícero e do Paulo Machado, conhecida na voz da Adriana Calcanhoto.

Mas, não quero falar sobre vontade de sumir do mapa. Quero falar sobre o amor. Ahhh, sempre ele, fanfarrão, presente na minha vida, na minha história e em quase todos os meus posts. O amor é pauta da minha vida no geral, mas ultimamente tem sido mais ainda, sobretudo pela forma que eu o enxergo.

E hoje resolvi ir a uma missa na hora do almoço, na catedral, em Assis. Sim, eu tenho redescoberto a minha espiritualidade e me encontrado no sagrado novamente por meio da doutrina católica e está sendo maravilhoso. E aí Padre Alberto (também uma grata surpresa, pois foi ele quem me crismou, quando eu tinha 14 anos) hoje falou sobre uma das passagens que eu mais gosto: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”.

A passagem é tão simples, mas é tão complexa em sua essência. Amar-nos uns aos outros, claro! Parece tão óbvio. Lógico que amamos o outro. O pensamento é sempre direto: se eu amo, eu amo alguém.

Entretanto, será que amamos mesmo? Ou temos uma falsa ideia do amor? A minha visão é que percebemos o amor de uma forma mais egoísta, satisfazendo o desejo de nosso ego. São duas coisas que eu vejo como muito comuns quando achamos que amamos alguém: ou confundimos o amor com o sentimento que brota pelo encantamento por alguém ou achamos que amor é a sensação maravilhosa que o outro causa em nós. De novo, o ego está na parada.

Mas, tenho certeza que você me perguntaria: “ixi, a menina tá doida? e lá amor não é mais sentimento?”. Hoje Padre Alberto falou exatamente o que eu penso e já escrevi em textos anteriores. Amor não é sentimento. Amor é escolha! Sentimento brota, sim, e pode ser verdadeiro. Sentimentos podem ser vários: encantamento, paixão, frenesi, frio na barriga, força de vontade, ânimo, bom-humor. Tudo isso pode ser disparado em nós quando alguém bate à porta do coração. Amor é diferente disso.

Aí eu, durante a missa, refletindo sobre as palavras do Padre fiquei assentindo com a cabeça e pensando justamente que era isso. Como meu Deus é muito maravilhoso resolveu me mostrar, na prática, o que foi isso que eu tinha acabado de aprender na teoria lá na igreja. Chegando em casa para o almoço, feliz da vida, tendo recebido uma bênção novinha em folha, com o espírito já alimentado, recebo o mau humor dos meus filhos.

Ao que entro pela porta, escuto de um “afffff, ela já chegou”. Digo oi para outro, que além de não me responder ainda limpa o rosto onde eu beijei (Luca, sempre ele, meu Shrek em forma de criança). Aí eu pedi cinco vezes para eles lavarem as mãos para almoçarmos. Cincooooo vezes. Isso, eu pedi 5 vezes, com toda a paciência de Jó. Aí, me vem Eduardo com a cara mais emburrada do mundo e me solta: “Aiiiiii, que saco, mas tem que almoçar todo dia? Eu não queria almoçar. Que chaaaaaato. Como você enche a minha paciência!!!!”. Eu, que tinha acabado de gastar todo o meu dinheiro em uma compra maravilhosa no supermercado, por que estava me sentindo culpada que na noite anterior ele pediu leite e tinha acabado, fiquei muito brava.

Saí soltando fogo pelas ventas em direção à cozinha, falando um monte de bobagens pra eles…. até que antes de chegar lá a minha ficha cai e me vêm as palavras de Padre Alberto “amor é escolha e decisão”. Pliiiiiiiim!!!! As fichas caíram. Todas, de uma só vez. Os mais velhos, como eu, de antes da década de 90, vão se lembrar dos telefones públicos da rua, os famosos Orelhões, que funcionavam com ficha. Lembra quando a ficha caía? Pois bem, minhas fichas caíram. E caíram junto minhas lágrimas de raiva, de chateação, de cansaço, de culpa e de gratidão, por ter entendido exatamente o que significa esse tal amor ser escolha e decisão.

Sim, eu amo meus filhos! Não tenho a menor dúvida de que os amo. Eu os amo desde a concepção. Eu os amo antes mesmo de saber como eles eram fisicamente. Antes deles serem seres físicos. E tenho certeza que toda mãe ama seu filho. Não concordo, de jeito nenhum, com a história de mãe não amar filho. Aí que está, talvez ela não escolha praticar ou manifestar o seu amor. Mas, que ama, ama!

Pois bem, eu amo Eduardo e Luca, como não amo mais ninguém neste mundo, além de Deus e de mim mesma. Mas, o amor é uma escolha diária. A cada segundo eu preciso praticar o amor que tenho por meus filhos.

A cada nova manhã eu preciso levantar da cama e vestir o amor que tenho por meus filhos para encarar mais um dia de trabalho, para sair para a luta e ganhar o sustento que dá o pão do prato deles, para matar uns 4 leões por dia, sozinha, no rebolado por vezes fora do ritmo que a vida me impõe para criar esses meninos. Tenho que me revestir de todo o amor que há no mundo para chegar cansada, às 18h, pegá-los na escola e levá-los à natação, ao Kumon, ao futebol, à casa do amigo, ao reforço escolar, ao teatrinho da escola, à China, à Marte, ao raio que o parta. Preciso botar em prática todo o amor que tenho por eles quando eles me desafiam seguidamente, testando os meus limites e os deles. Tenho que reafirmar quanto eu os amo quando o pai deles fica três semanas sem visitá-los e eu preciso ser mãe em tempo integral, sem um minuto de respiro, sem um chope com as amigas, sem um almoço num mundo adulto. Preciso me lembrar de todo o amor que sinto por eles quando Luca bate nos amigos na escola e eu sou chamada pela quadragésima nona vez pela professora para falar do mau comportamento do meu filho.

É preciso amor, minha gente, muito amor em forma de atitude para realmente amar quem a gente ama. É preciso escolher a cada segundo amar. É necessário mostrar esse amor em atitudes diárias. Sentir não é o bastante. Deixar o sentimento fluir não edifica nada no amor.

Bem, e aí, voltando ao chilique da hora do almoço… eu chorei, chorei, chorei. Ganhei o abraço da Simone, minha ajudante-anjo, os meninos ficaram assustados (quando eu choro na frente deles é quando o bicho pega muito e aí eles ficam pianinho), foram pra mesa, comeram tudo sem dar um pio, eu me mantive em silêncio e conclui feliz que, sim, eu amo meus filhos. Eu escolho amar os meus filhos a cada segundo. E vou me esforçar em amá-los ainda mais quando eles desafiarem os meus limites, pois é aí que eles mais precisam do meu amor. Assim seja!

15 jun 2015

O jardim secreto da minha vida

Post por Glauciana às 10:29 em Devaneios de Mãe

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Por: Giuliana Vaia

A vida é cheia de coisinhas que viram febre e viralizam nas redes sociais. Pois bem, depois de amordaçar-se num pilar gelado e levar chicotadas no lombo, a onda agora é mais branda, a onda agora é colorir livros de flores! Graças a deus. Ortopedistas cobram muito caro e minha hérnia não estava mais suportando.

Enfim, quando era eu pequena, eu amava esses livrinhos que hoje são ítens indispensáveis na pia de louça suja, digo, na vida da mulher moderna conectada que divide seu precioso tempo entre filhos, facebook, fraldas sujas, trabalho, marido, begônias, mandalas e sadomasoquismo. E um dia, do alto de meus 9 anos, pintando uma galinha ou coisa assim, não não, era um pavão, lembrei; me vi meio que paralisada por um grande medo de errar. Sim, errar a pintura. E se eu borrasse? E se o lápis escapasse da minha mão? E se minha mãe achasse feio? E se pavão fosse verde e não lilás? E então eu caprichava cada vez mais num perfeccionismo quase doentio e tremia toda vez que o azul encostava no amarelo, mas de modo geral tudo corria muito bem, e aquilo de certa maneira me confortava, pois eu estava deslizando dentro de linhas prontas que delimitavam o espaço entre mim e a assustadora liberdade que me assombrava, e assim eu me eximia da árdua tarefa que era pensar, criar, raciocinar, inventar. Eu só tinha a que pintar e ponto. Fora que a alegria que eu sentia quando via aquilo tudo preenchido fazia meu sistema límbico bater palminhas ritmadas dentro do meu cérebro. Era bom, pra época.

Anos depois, muitos anos depois, descobri que sou portadora de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e percebi que aquelas linhas demarcadas eram minha segurança, meu muro arrimo. Era tranquilo pintar ali dentro, era gostosinho e eu podia simplesmente relaxar, porém nunca saia daquela mesmice e nossa! que tédio insuportável.

Quando assimilei tudo isso e inverti meu modo de pensar, aceitando o borrão como talvez a parte mais importante do meu desenho, minha vida passou a ser melhor. Quando eu aceitei então que eu era o próprio borrão, aí minha vida deu um salto quântico rumo a iluminação: eu não nasci pra pintar dentro da linha, eu nasci pra folha em branco e por mais que uma folha em branco (ainda) me provoque diarréias torrenciais e ataques de pânico, é exatamente isso que me faz ser dona dessa criatividade esquisita pros padrões Office, mas que hoje em dia, é meu ganha pão e me sustenta.

E assim, eu me dei sinal verde pra errar quando e onde eu quisesse, arranquei sem dó as linhas prontas e criei as minhas próprias, tortas, tremidas, disformes, cambaleantes, mas minhas.

Um TDAH é incapaz de montar sua própria estrutura interna afim de conseguir conduzir uma rotina, simplesmente porque seu mundo interior é uma bagunça sem tamanho! Pra você ter uma idéia, vejo meu cérebro como um almoxarifado cheio de gavetas com arquivos trocados, então uma estrutura externa se faz necessária pra gente poder seguir em frente com alguma ordem e progresso, porém……. isso nos tolhe toda criatividade que foi nos foi dada de presente junto com o transtorno (porque algum benefício haveria de ter, né mesm?) e passar a vida tentando ser igual aos outros, ou tentando ao menos parecer normal é desgastante e inútil pra quem tem devaneios luxuriosos no meio de uma missa. (não que eu tenha, só um exemplo).

Em suma, pintar dentro do espaço pré-estabelecido pelo outro pode proporcionar uma tremenda segurança, mas eu a troco, de olhos fechados pela liberdade de ser esse tortuoso e estranho borrão no meio da paisagem colorida, e convido você, tdah ou não, a pintar fora da linha pelo menos uma vez na vida. É libertador.

Próxima moda, por favor.

14 mai 2015

Hospital de Niterói promove curso gratuito para gestantes

Post por Glauciana às 11:50 em Saúde

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Já estão abertas as inscrições para o curso de gestantes e pais, que acontecerá no CHN (Complexo Hospitalar de Niterói), no dia 6 de junho, das 8h às 16h30. O objetivo do evento é tirar as principais dúvidas sobre o processo de gestação, do parto e do nascimento do bebê.

Entre os assuntos abordados por meio de palestras e dinâmicas estão: Desenvolvimento Fetal, com o médico Leonardo Nese; Modificações no Organismo Materno, com a médica Daniela Gomes; Puerpério, com a Dra. Priscila Pyrrho; Amamentação, Atividade Física na Gravidez, além de muitos outros temas.

“O foco do encontro é dar informações às mães e tranquilizá-las em um momento tão especial. Dessa forma, o curso oferecerá orientações desde o pré-natal até o pós-parto”, explica a Dra. Priscila Pyrrho, coordenadora da Maternidade do CHN.

O curso é gratuito e extensivo ao casal, mas as vagas são limitadas. Informações e inscrições no Centro de Estudos do CHN pelos telefones: (21) 2729-1173 e (21) 2729-1154. O CHN fica localizado na Rua La Sale, 12 – Centro – Niterói/RJ.

12 mai 2015

A mãe que eu quero ser

Post por Glauciana às 16:28 em Devaneios de Mãe

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Eu tenho mil pensamentos e questionamentos sobre a mãe que sou e que desejo ser diariamente para Eduardo e Luca. Penso nos valores que quero passar a eles, reflito sobre a qualidade de nosso tempo juntos, me esforço para me dedicar nas brincadeiras, para que a vida seja leve e que eu faça parte do universo lúdico deles. Tento mostrar esse mundão, nas formas de informação que conheço – e que temos buscado muito juntos, essa tem sido uma parte deliciosa da fase em que estamos vivendo.

Aí, agora aqui no escritório, entre o texto de um cliente e outro, me peguei pensando em uma pessoa que apertou o botão do interesse aqui dentro do coração :) ainnnn, que goxxxxtoso, não?!? Pensa nele, escreve, tem vontade de mandar uma mensagem, escreve de novo, tem vontade de pegar o carro e dirigir até a cidade vizinha pra tomar um café com ele, escrevinha mais um pouco.

Aí o pensamento, que não tem cerca nessa cachola aqui, chega logo em Joana D’arc, minha mãe guerreira. No fim de semana saímos juntas. Eu a levei pra conhecer a minha turma de amigos (que muitos, inclusive, têm a idade dela :) é, eu sempre gostei da galera mais experiente!). E aí contei a ela que eu tinha me permitido me interessar por uma pessoa novamente e que ele morava fora de Assis. Minha mãe, com o maior sorriso do mundo, alegrou-se e me disse: Ahhh, então chame-o pra passar um fim de semana conosco. Nos conhecemos, fazemos uma comidinha, tomamos uma cerveja”.

E aí eu faço o link dos dois assuntos que comecei neste post. Pareço louca, mas não sou tanto assim, não, gente! Comecei falando da mãe que quero ser, passei pro paquera, mas cruzo os assuntos. Isso foi pra chegar nesse modelo de mãe. Pronto! Eu quero ser massa como minha Joana D’arc é comigo!

Johanne é aquele tipo de mãe que teve mil problemas e fraquezas, quem nunca, né?!?! Mas, mamãe tem uma característica que é impagável: se está bom para mim está bom para ela. Desde muito pequena escuto-a falar o bordão: “quem agrada minha filha adoça a minha boca”. E Johanne, minha guerreira francesa, faz isso diariamente comigo.

Mamãe sempre me incentivou a tudo. Quando éramos muito pobres e morávamos numa casinha de Cohab, que não tinha reboco nos muros. Quando não tínhamos nem um carro pra ir e vir. Quando o dinheiro mal dava pra pagar a prestação mensal da casa. Nessa época mamãe ganhou uma bolsa de estudos de quase 100% com a Rosinha, a dona do Colégio Ipê, em Assis, quando ele ainda se chamava Colégio João Paulo. Graças ao esforço da minha mãe, o meu próprio em estudar, é claro, e à generosidade da Rosinha e do Rigon, os donos da escola, é que eu tive formação suficiente para passar em uma universidade pública direto do terceiro colegial, quando ainda tinha 17 anos.

Foi nessa época, ainda criança, que minha mãe meteu as caras e conseguiu também uma boa parcela de desconto com o Seu Toninho do FISK e eu comecei a fazer inglês, curso que me abriu diversas portas. Hoje, inclusive, se eu tenho um trabalho internacional é por que eu falo esta língua.

Depois, mesmo com toda a dificuldade de grana que tínhamos, mamãe e meu pai Marcos deram o sangue pra me manterem em Bauru e eu poder cursar Relações Públicas na UNESP. Curso, inclusive, que minha mãe nunca se ôpos. Se essa tinha sido a minha escolha, ela assinava embaixo.

Até nas loucuras mais loucas da vida, como quando virei pra ela e disse que ia chutar um emprego estável, um apartamento novinho, uma cidade aonde estava estabelecida, que venderia o carro dos sonhos que acabara de comprar… e que iria morar com os menino tudo embaixo do braço, na beira do mar da Bahia. Nem assim Johanne titubeou. Sempre esteve ao meu lado e, além de me apoiar, fazendo a mudança comigo, ainda disse: “seja feliz, minha filha, Deus lhe acompanhe e te abençoe!”.

Depois, quando a distância da Bahia começou a fazer mal a meus meninos e a mim também e que eu senti que o ano sabático havia acabado, 1 ano e 3 meses depois, foi Johanne que me acolheu de braços abertos em Assis, no ano passado. Ela abriu não só seu coração, mas também um apartamento que tem e me cedeu, não cobrando um centavo por minha estadia lá. Lá é o meu lar atualmente. Junto de meus filhos.

Eu tenho a mãe que eu quero ser para meus filhos. Uma mãe que não mede esforços para me ver feliz. Uma mãe que respeita o meu jeito. Que me ama nas intempéries e nas loucuras. Que sabe que em alguns momentos eu vou quebrar a cara, mas que não levanta o dedo, naquele tom tenebroso de algumas mães. Uma mãe que apoia os meus sonhos e que embarca comigo, seja na alegria da realização deles ou no choro da quebrada de cara.

Quando eu caio é ela quem me abraça, me escuta, me coloca no colo, me acolhe com todo o seu amor. Ela também chora junto, diz que entende a minha dor e que a aceita. Eu tenho uma mãe que aceita as minhas dores. Ela não diz “já vai passar”, por que ela sabe que algumas dores demoram a passar. Neste mês faz 4 anos que eu divido com ela as feridas de minha separação e ela acolhe esse lamento sem se cansar deste mimimi, que só agora está, de fato, cicatrizando.

Então é isso! Eu quero ser para meus filhos a mãe que eu tenho. Sem sombras de dúvidas, eu acho que eles serão felizes tendo uma mãe assim, como eu sou todos os dias da minha vida <3

07 mai 2015

O que você vai ser quando seu filho crescer?

Post por Glauciana às 14:09 em Mãe e Filhos

No último feriado eu estive em Minas Gerais para o aniversário da minha afilhada Catarina e conversei muito com minha comadre e amiga de infância, Sofia, mãe dela. Sabe aquelas conversas que duram dias, enquanto a criançada corre e brinca, aí falamos mais um pouco, pausa pra dar almoço, bate mais papo, é interrompida por um “mãeeeee, terminei, vem me limpar?”.

Essa conversa foi justamente sobre isso, sobre o quanto nos desdobramos para conseguir ser a mãe que escolhemos ser. Abdicamos de nossas carreiras da forma tradicional, vivemos cansadas, com as unhas por fazer, deixando de jantar para limpar cocô ou trocar a fralda (incrível como o coco só vem na hora que a gente está comendo, não?!? rs…). Pois é, não é fácil! Só quem é mãe sabe da solidão que é criar filhos de forma mais integral e menos terceirizada. Por mais que estejamos rodeadas de gente a sensação – ou as milhares de sensações – são sempre só nossas!

E no final da conversa a gente terminou com uma conclusão que recompensa todo o esforço: a gente está fazendo o melhor para que eles sejam pessoas de bem no futuro!

Aí que hoje eu vi o vídeo “O que você vai ser quando seu filho crescer?” de Ninho e chorei litros. É isso mesmo! Não escrevi errado, não. Pois é, quando a gente pensa no futuro dos filhos, mesmo que não saiba exatamente o que eles serão, arriscamos na ponta da língua alguns palpites.

Mas, e ao contrário? O que nós seremos quando eles crescerem? Eu confesso que essa pergunta me pegou de calças curtas, pois eu não consigo nem me imaginar quando meus filhos forem adultos. Hoje eles são a tônica da minha vida. Quase que 100% do que faço é por eles. Eduardo e Luca são os meus parceiros, já que vivemos juntos. My God, o que eu serei quando meus filhos crescerem?

Bem, eu acho que serei feliz por ter dedicado integralmente a minha vida para o cuidado deles e a nossa criação de vínculos, o que eu considero fundamental para que eles sejam adultos seguros e emocionalmente resolvidos. E nesta felicidade eu sei que também mora uma consciência tranquila por ter feito o que me cabia desde o momento em que descobri o coraçãozinho deles batendo dentro de mim. Ahhh, e não se engane: isso não tem a ver com ter feito tudo certo, pois isso é utopia. Não existe mesmo! Mas que eu colocarei a cabeça tranquila no travesseiro, orgulhosa pelo nosso caminho, ahhh isso eu colocarei :)

E você, o que você vai ser quando seu filho crescer?

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